A cena é digna de opereta. Sentaram-se numa sala, dois senhores com canetas caras, e combinaram que a escolha do candidato ao Senado pelo maior colégio eleitoral do país ficaria nas mãos de um ex-deputado que hoje mora fora do Brasil. Não houve prévia, não houve convenção competitiva, não houve um pingo de deliberação orgânica. Houve o que sempre há nesses arranjos: uma divisão de feudos entre padrinhos. O Partido Liberal, que se apresenta ao eleitor como dique de contenção contra o fisiologismo alheio, acaba de transformar a vaga mais disputada da República num prêmio de família, um espólio que se reparte no cartório antes mesmo do enterro.

Convém lembrar ao distraído o que é, materialmente, uma cadeira no Senado. São oito anos de mandato, gabinete parrudo, verba indenizatória generosa, emendas parlamentares na casa das centenas de milhões, poder de aprovar ministros do Supremo, embaixadores, presidentes de bancos públicos. O contribuinte de São Paulo paga a festa inteira e não foi consultado sobre o cardápio. A pergunta óbvia, aquela que o jornalismo domesticado jamais formula, é quem se beneficia quando a decisão sai de um palanque e migra para uma conversa reservada entre dois compadres. A resposta é desconfortável: beneficia-se quem já tem o microfone e quem já controla o cofre partidário, nunca o sujeito que deposita a cédula acreditando estar escolhendo algo.

O silogismo é simples e não perdoa. Se um partido entrega a um único indivíduo o poder de ungir o candidato majoritário de um estado inteiro, então esse partido não é uma associação voluntária de cidadãos em torno de princípios, é uma empresa familiar com registro eleitoral. E se é empresa familiar, então toda a retórica de renovação, de combate ao velho toma lá dá cá, de ruptura com a política fisiológica, não passa de mercadoria publicitária para consumo do trouxa médio. O rótulo diz libertação, o conteúdo da lata é oligarquia de sobrenome. Aristocracia travestida de movimento popular é velharia que a história já catalogou em dezenas de regimes, dos Médici florentinos aos coronéis do café com leite, e o enredo termina sempre igual: concentração de poder, captura de recursos públicos, filhos herdando o que os pais conquistaram na base do carisma.

Siga o dinheiro e o quadro fica cristalino. Quem controla a indicação controla o futuro senador; quem controla o senador controla o voto em nomeações estratégicas, em relatorias de projetos bilionários, em comissões que mexem com tributação, com regulação setorial, com repartição de fundos. O fundo partidário, aquele dinheiro confiscado de você e de mim via orçamento, engorda a mão de quem distribui as vagas. O fundo eleitoral, outra gentileza compulsória da sua carteira, irriga a campanha escolhida pelo padrinho. Portanto, o eleitor paulista financia, sem ter pedido, a consolidação de um clã específico dentro de uma sigla específica. É taxação sem representação adornada com bandeira verde e amarela, um truque antigo que os colonos americanos já tinham identificado lá atrás, mas que por aqui vende bem quando embrulhado em patriotismo.

Há ainda a piada mais fina, aquela que os marqueteiros tentam esconder. O escolhido para escolher reside em outro país. Vai ungir o representante de quarenta e seis milhões de paulistas por delegação remota, via reunião reservada, enquanto constrói biografia no exterior. É como contratar um síndico que mora em outro condomínio para decidir a cor do portão do seu prédio. Funciona? Funciona para o síndico. Para o morador, nem tanto. Mas a imprensa aliada celebra o arranjo como gesto de estrategista, e a imprensa adversária explora o ângulo do nepotismo sem nunca tocar no ponto verdadeiramente grave, que é a mecânica institucional que permite esse tipo de concessão acontecer dentro de qualquer partido, sob qualquer bandeira, em qualquer eleição. O problema não é o sobrenome da vez, é o modelo que transforma legendas em feudos.

Resta a pergunta de sempre, aquela que começa e encerra qualquer análise honesta. Quem paga e quem recebe. Paga o eleitor médio, que banca via imposto o fundo partidário, o fundo eleitoral, os salários, as emendas, as estruturas; recebe uma casta reduzidíssima de operadores que negociam cadeiras como se fossem ações preferenciais de uma holding familiar. O resto é decoração. Enquanto o cidadão achar bonito aplaudir a coroação do príncipe herdeiro só porque o rei anterior usava a cor certa de camisa, o circo continuará rodando, com ingresso pago pelo público e camarote reservado para os donos do picadeiro.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.