O imaginário coletivo congelou o samurai numa estampa única, homem de armadura lacada, espada curva e olhar grave, repetida à exaustão em filme americano, mangá juvenil e camiseta de shopping. Acontece que a realidade histórica japonesa, aquela que se lê em registros de clã e em crônicas militares, traz uma figura que o roteirista de Hollywood resolveu ignorar por décadas, a mulher da casta guerreira treinada para a guerra, armada, e em mais de um episódio documentado, vencedora. Não é fábula feminista nem invenção de departamento de diversidade, é fato cru, anterior em séculos a qualquer manifesto contemporâneo.

A onna bugeisha, como eram chamadas as guerreiras da nobreza militar, aprendia desde menina a manejar a naginata, aquela lâmina curva montada em haste longa, arma desenhada justamente para compensar diferenças de alcance e força. Aprendia também o tantojutsu, a luta com adaga, porque a defesa do castelo enquanto o marido estava em campanha não era detalhe protocolar, era ofício. Tomoe Gozen, no século doze, entrou em batalha decapitando comandantes inimigos, registrada em crônica que ninguém escreveu para agradar o século vinte e um. Nakano Takeko, já no século dezenove, formou uma unidade de combatentes e morreu lutando contra as tropas imperiais com a naginata na mão. Não pediram cota, não pediram lei, não pediram comissão parlamentar, pegaram a arma e foram.

É aí que a coisa fica interessante, porque a narrativa contemporânea precisa de vítima permanente para justificar a máquina burocrática que cresce sobre ela. Se a mulher sempre foi, em todas as culturas e tempos, esmagada e silenciada, então faz sentido haver secretaria, ministério, conselho consultivo, fundo de fomento, ONG subsidiada, programa interministerial, tudo financiado por imposto compulsório retirado do bolso do contribuinte para reparar uma opressão eterna. Quando aparece uma Tomoe cortando pescoço em mil cento e oitenta e quatro, o roteiro emperra. Por isso ela some do livro didático, vira nota de rodapé, no máximo aparece como exceção exótica em documentário de canal pago.

O ponto não é trocar uma idolatria por outra, transformar a onna bugeisha em pôster de campanha. O ponto é notar quem ganha quando a história verdadeira é trocada por versão simplificada. Ganha o burocrata, que vende a si mesmo como necessário. Ganha a universidade, que produz tese sobre vitimização secular e fatura verba pública. Ganha o ativista profissional, cujo salário depende da permanência do problema, nunca da solução. Perde a mulher real, transformada em peça de retórica, e perde o contribuinte, que paga a conta de uma indústria de compaixão que descobriu na queixa um modelo de negócios mais lucrativo do que qualquer mineradora feudal.

A guerreira japonesa não precisou de delegado, de decreto, de cartilha. Treinou, lutou, perdeu, venceu, morreu como gente, não como símbolo. A cultura que a produziu não era paraíso igualitário, longe disso, mas reconhecia que numa casa cercada por inimigos a sobrevivência não escolhe sexo de quem segura a lâmina. Há mais respeito real pela mulher num registro de batalha do século doze do que em mil portarias assinadas por ministro que nunca empunhou nada mais pesado do que caneta de luxo. A lição, se houver alguma, é que a dignidade não se decreta, se conquista, e quem conquista raramente precisa que o Estado venha depois explicar quem ela é.

Quando uma sociedade troca o registro histórico pela alegoria conveniente, não é distração, é projeto. Há sempre uma folha de pagamento sustentando o esquecimento seletivo, e outra sustentando a versão oficial que substitui o esquecido. Os samurais mulheres existiram, lutaram e morreram sem pedir licença a comitê algum. O que pretende cada novo comitê é justamente que ninguém mais consiga fazer o mesmo sem pagar pedágio.

Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.