Existe uma ironia cruel na situação atual do governo federal que nenhum marqueteiro consegue empacotar direito: o homem que subiu ao poder prometendo que "o povo vai comer três vezes por dia" governa um país onde a cesta básica corrói o salário mínimo mês após mês, onde o crédito rotativo cobra juros de agiotas medievais e onde a classe média descobre, ao abrir o extrato, que ficou mais pobre apesar de trabalhar mais. A percepção econômica que derruba as pesquisas de Lula não é fruto de "narrativa da oposição", como gostam de dizer os porta-vozes palacianos. É o resultado inevitável de alguém que trocou a realidade por um palanque.

O mecanismo é simples e implacável, como toda boa armadilha. O governo gastou. Gastou muito, gastou rápido, gastou com a solenidade de quem distribui generosidade alheia. Cada real que saiu do Tesouro para financiar benefício, subsídio, empreitada ou programa com nome bonito foi retirado, por meios diretos ou indiretos, do bolso de alguém que não estava na sala quando a decisão foi tomada. O imposto é o mecanismo explícito, o mais honesto deles. A inflação é o mecanismo clandestino, o mais covarde: um imposto que ninguém votou, que nenhum deputado assinou, que corrói a poupança do assalariado enquanto o secretário de estado inaugura obra com faixa e discurso. O cidadão sente o roubo, mas demora a identificar o ladrão. Quando identifica, a pesquisa cai.

Acompanhe a trilha do dinheiro e o quadro fica límpido. Os programas de transferência de renda existem, custam caro e têm beneficiários reais. Até aí, nada que não se saiba. O problema começa quando você pergunta quem, exatamente, celebra a expansão fiscal além dos beneficiários diretos. A resposta é longa e inclui empreiteiras que constroem as obras do PAC, bancos públicos que emprestam a taxas subsidiadas e cobram spread privado, consultorias que estruturam projetos, ONGs que recebem convênios, partidos que recebem cargos em estatais em troca de apoio legislativo. O programa social é a vitrine. O fundo da loja é outra conversa. E é essa outra conversa que o eleitor médio não vê, mas sente nos preços.

A lógica do poder popular tem uma fragilidade estrutural que nenhuma comunicação resolve: ela funciona enquanto a realidade material coopera. O romano antigo sabia disso antes de qualquer teórico moderno. Pão e circo funcionam enquanto há pão. Quando o pão some, o circo irrita. Lula é um político de rara habilidade narrativa, o que torna sua situação ainda mais reveladora: se alguém sabe vender uma história, é ele, e mesmo assim a percepção econômica o afunda. Isso não significa fracasso de comunicação. Significa que o problema é real o suficiente para resistir à melhor propaganda disponível no mercado.

O que os números das pesquisas mostram, no fundo, é que o brasileiro está fazendo o que sempre soube fazer quando a teoria bate na realidade: comparar. Compara o preço do aluguel de hoje com o de dois anos atrás. Compara a fatura do cartão de crédito com o salário. Compara a promessa do palanque com o extrato do mês. Essa comparação não precisa de economista, não precisa de oposição organizada, não precisa de mídia hostil. Ela acontece na cozinha, no mercado, no posto de gasolina. E o veredicto que sai dessa comparação doméstica é o que aparece, com algum atraso e alguma distorção, nas pesquisas de aprovação. O rei pode controlar o rádio e a televisão. Não controla o fogão.

A questão que fica, e que ninguém no entorno do presidente parece ter coragem de formular em voz alta, é a seguinte: há solução dentro do modelo atual? Gastar menos ofende a base. Gastar mais aprofunda a inflação. Elevar juros para conter a inflação sufoca o crédito e irrita o mesmo eleitor que você tentava proteger. É uma geometria de contradições que qualquer governo que confunde generosidade com política pública acaba encontrando. O dinheiro não some, ele apenas muda de mãos. E quando muda de mãos via Estado, quase sempre sai de quem produz e vai para quem negocia. O eleitor que percebe isso não precisa de legenda partidária para saber em quem não vai votar.

Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.