Existe na floresta amazônica um animal de trinta centímetros, corpo segmentado, dezenas de patas trabalhando em coreografia perfeita, que se arrasta no escuro úmido e captura morcegos em pleno voo, devora sapos inteiros, mata répteis com uma mordida carregada de neurotoxina. Chama-se centopéia-gigante-amazônica, e a ciência a coroou recentemente como a maior do planeta. A primeira reação de quem lê é o arrepio. A segunda, se o sujeito tiver dois neurônios funcionando em série, é o riso. Porque o brasileiro médio, treinado para ter pavor de bichos peçonhentos, convive serenamente com um predador muito mais voraz, muito mais venenoso, e que mora num prédio de mármore no Planalto Central.
Olhe para o método. A centopéia não pede permissão à presa, não convoca audiência pública, não publica edital de consulta antes de injetar o veneno. Ela simplesmente identifica o alvo, calcula o bote, e executa. Há nisso uma honestidade brutal que falta ao confisco moderno. O bicho não promete ao morcego que o veneno é, na verdade, um investimento em saúde coletiva. Não argumenta que devorar o sapo é redistribuição ecológica. Não cobra do réptil uma contribuição compulsória chamada imposto sobre circulação de tecidos. A centopéia mata e come. Ponto. O Estado, por sua vez, faz a mesma coisa, mas exige aplauso, gratidão e voto na próxima eleição.
Repare ainda na proporção. Trinta centímetros de bicho derrubando uma presa três vezes maior. Aristocracia da força bruta. Pois bem, o cidadão que ganha quatro mil reais por mês entrega, somando tributos diretos e indiretos, algo próximo de quarenta por cento do que produz. É uma centopéia invisível enrolada no pescoço, picando todo dia, todo mês, toda nota fiscal de pão na padaria, toda conta de luz, toda gota de gasolina. E o sujeito agradece, porque foi convencido desde a escola que sem essa picada permanente o país desabaria. A propaganda é tão eficiente que faz o morcego defender a centopéia em assembléia.
Há uma diferença, contudo, e ela é decisiva. O animal amazônico opera dentro do que a natureza permite: caça o que pode comer, e nada além. Não acumula reservas em paraísos fiscais, não compra apartamento em Miami com o sangue do sapo, não reserva uma fração da presa para distribuir entre primos, sobrinhos e cabos eleitorais. A centopéia é eficiente porque é limitada. O Estado é devastador porque é ilimitado. Quando se concede a alguém o monopólio legal da força e o direito unilateral de definir quanto vai retirar do outro, o resultado é matemático, é silogismo de manual: poder sem freio mais incentivo para crescer é igual a leviatã. Não há surpresa, há aritmética.
E note a beleza do contraste retórico. A imprensa publica a manchete sobre a centopéia gigante com tom de horror reverencial, fotos em close, adjetivos tremendos. Mas quando o orçamento secreto avança mais um bilhão, quando uma estatal queima dez bilhões em obra inacabada, quando se cria mais uma agência reguladora para proteger o cidadão de si mesmo, o mesmo jornal noticia em tom de pauta administrativa, com a serenidade de quem comenta a previsão do tempo. O escândalo verdadeiro é doméstico, é cotidiano, é aceito. Já o escândalo decorativo, o bicho na floresta, vira sensação. Cortina de fumaça funciona desde o circo romano, e segue funcionando porque a platéia aprendeu a aplaudir o palhaço enquanto o ladrão revira o bolso.
A pergunta honesta, então, não é quantos centímetros tem a maior centopéia do mundo. A pergunta é quem paga e quem recebe. O morcego amazônico paga com a vida e o predador come; é simples, é trágico, é natureza. O contribuinte brasileiro paga com seu trabalho e o predador come, gasta mal, perde, rouba, distribui aos amigos e ainda manda uma nota fiscal de gratidão pelo serviço prestado. Entre as duas centopéias, dêem-me sempre a de trinta centímetros. Pelo menos esta tem a decência de não fingir que está nos protegendo.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.