Prestem atenção na elegância do golpe. O sujeito que enriqueceu vendendo carros elétricos com subsídio estatal, que construiu foguetes com contrato do Pentágono, que comprou uma rede social para moldar o debate público, agora vem a público sugerir, com a cara mais lavada do mundo, que o governo federal pague uma renda universal alta aos cidadãos porque a inteligência artificial vai tomar os empregos. Notem a construção da frase, porque ela é uma obra-prima da manipulação. O desemprego virá de uma força impessoal, quase meteorológica, chamada inteligência artificial, como se ninguém em particular estivesse construindo, financiando e lucrando com ela. E a solução, claro, é o cheque do Tesouro. Conveniente, não?
Sigamos o dinheiro, que é o único caminho honesto quando um bilionário resolve bancar o filantropo. Quem desenvolve os modelos que vão substituir o caixa do mercado, o motorista de caminhão, o redator de texto, o analista júnior, o radiologista? Um clube fechadíssimo de meia dúzia de empresas, todas elas sustentadas por capital que o cidadão comum jamais verá de perto. Esse clube converte mão de obra em código, demite dezenas de milhões, e o lucro, naturalmente, sobe para o topo da pirâmide. A conta social da demissão em massa, porém, essa fica com você. Via imposto. Via inflação. Via dívida pública que seu neto vai pagar. O arranjo é bonito: privatizam o ganho e socializam o custo, e ainda conseguem se apresentar como heróis compassivos por proporem a esmola.
A renda universal é vendida como gesto humanitário, mas há que se olhar o que ela faz na prática, não o que diz fazer. O que ela faz é transformar o cidadão produtivo em pensionista do Estado, amarrado pelo cordão umbilical da transferência mensal, incapaz de se contrapor a qualquer governo que controle a torneira. Roma tardia já fez isso e chamou de pão e circo. A plebe recebia o trigo gratuito, aplaudia o imperador, votava nos gladiadores e deixava os senadores decidirem o resto. Deu no que deu. A diferença é que hoje o trigo vem em forma de PIX e o circo tem algoritmo de recomendação. O resultado político, porém, é o mesmo: uma massa domesticada, previsível, eleitoralmente cativa de quem promete aumentar o benefício.
Há ainda o probleminha menor, quase detalhe, de onde sai o dinheiro. Governo nenhum tem dinheiro próprio, isso é verdade de catecismo. Ou tira do contribuinte hoje, via imposto, ou do contribuinte amanhã, via dívida, ou do contribuinte escondidamente, via impressão de papel que corrói o valor do salário. As três formas são confisco. A renda universal alta, nos números que o bilionário sugere, exigiria uma arrecadação tão brutal que faria o Leão atual parecer gatinho de estimação. E quem paga imposto de verdade no sistema tributário contemporâneo? Não é o dono do foguete, cuja empresa navega entre incentivos e paraísos fiscais. É o assalariado, o pequeno comerciante, o profissional liberal, essa gente que não tem estrutura para otimizar nada. A proposta, portanto, é que os que ainda trabalham financiem a inatividade dos que foram substituídos pelas máquinas dos que não pagam imposto. Engenharia fiscal digna de moldura.
E convém perguntar, com toda a ingenuidade calculada, por que justamente agora o discurso do fim do trabalho se tornou consenso confortável entre empresários de tecnologia, acadêmicos progressistas e autoridades monetárias. Quando três grupos que normalmente brigam entre si concordam em uníssono sobre alguma coisa, alguém está sendo passado para trás, e geralmente é quem não está na sala. Vende-se a inevitabilidade histórica da renda básica como se fosse previsão do tempo, quando é escolha política deliberada, feita por quem tem algo concreto a ganhar. O trabalho humano não acabou. O que acabou foi a vontade de certas elites de conviver com trabalhadores que pensam, votam e eventualmente se organizam. Gente dependente de benefício faz menos barulho. Coincidência, seguramente.
A pergunta que encerra o assunto é a mesma que o abriu. Quem paga, quem recebe? Paga o sujeito que ainda acorda cedo, pega trânsito, produz algo tangível e vê seu salário real derretendo. Recebe, em primeiro lugar, o cidadão transformado em cliente permanente do Estado, e, em segundo lugar e muito mais graúdo, o dono da máquina que provocou o desemprego e agora tem mercado consumidor garantido pelo subsídio público para comprar o que ele vende. É o círculo perfeito da extração moderna: automatizar, demitir, lobbyar pela renda básica, vender para o beneficiário, lucrar duas vezes. Chamar isso de compaixão é ofensa à inteligência de quem lê. O rei está nu, a proposta é velha e o truque, embora bem vestido, é rasteiro.
Com informações da Gazeta Brasil. A análise e opinião são do O Algoz.