Eis que o velho cacique, condenado em duas ações penais por crimes contra a administração pública, sai do retiro forçado e nos brinda com uma carta. Não uma carta de arrependimento, note bem, nem um pedido de desculpas pelos cofres saqueados, mas um chamado solene à "organização e unidade" do campo "democrático, progressista e popular". O pré-candidato a deputado federal, com a serenidade de quem nunca quebrou um vaso na vida, convoca a tropa para 2026 como se o mensalão tivesse sido um mal-entendido editorial. É preciso ter um estômago de avestruz, ou uma memória de peixe-dourado, para engolir o espetáculo sem rir.

Quando alguém com esse currículo fala em "diálogo com todas as forças progressistas", a tradução é direta: precisamos reorganizar o cartel. As palavras bonitas funcionam como aquela tinta de cerca que esconde o cupim. Unidade aqui não significa convergência de ideias, significa partilha do orçamento. Diálogo significa repartição de cargos. Forças populares significa sindicatos, ONGs e fundações que vivem da teta do contribuinte e precisam garantir que a teta continue cheia. A carta não é um manifesto político, é uma planilha disfarçada de poesia.

Convém seguir o dinheiro, porque é nele que mora o demônio dessa história toda. Um pré-candidato a deputado federal pelo PT em Minas Gerais não está pedindo "organização" por amor à pátria. Está pedindo que o aparato estatal, financiado pelo padeiro, pelo pedreiro e pela costureira que pagam imposto sobre tudo o que respiram, volte a ser direcionado para a mesma rede que sempre orbitou em torno dele. Cada palavra de "frente ampla" custa caro ao bolso de quem nunca foi convidado para a frente nenhuma, apenas para pagar a conta do banquete.

A audácia retórica é digna de manual. Falar em democracia depois de ter sido peça central na operação que comprou parlamentares com dinheiro público e privado embaralhados num esquema barroco é o equivalente moral de um incendiário pedindo verba para o corpo de bombeiros. Mas a guerra cultural ensinou bem os seus alunos: quem domina o vocabulário domina o jogo. Chame o roubo de redistribuição, chame o aparelhamento de participação social, chame o conchavo de unidade, e pronto, o crime vira virtude pela alquimia das palavras. O truque é antigo, vem desde os sofistas que vendiam silogismos por moeda de prata na ágora.

Há ainda o detalhe aristotélico, aquele que a imprensa amestrada finge não ver. As coisas são o que são, não o que a narrativa pretende. Um homem condenado por corrupção ativa e formação de quadrilha, que retorna à cena pública pregando ética da convivência, não se transforma em estadista pela simples passagem do tempo. O tempo cura feridas, não currículos. E pedir voto para deputado federal depois de tudo isso só é possível num país onde a memória coletiva foi terceirizada para o Jornal Nacional e a indignação foi privatizada por militantes profissionais.

Resta a pergunta de sempre, a única que importa nessa novela enfadonha: quem paga e quem recebe? Paga o trabalhador que vê o salário derretido pela inflação, que carrega nas costas uma carga tributária digna de país escandinavo sem receber em troca nem coleta de lixo decente. Recebe a casta que se autointitula progressista, que confunde o próprio bolso com o bem comum, e que agora reorganiza as fileiras para mais uma temporada na boquinha. A carta do velho cacique não é convocação política, é convite para jantar. O cardápio, como sempre, somos nós.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.