A cena se repete com a pontualidade de um relógio suíço emprestado. Uma líder oposicionista sobe ao palco em solo europeu, distante dos tanques e dos blecautes que supostamente combate, acena para uma multidão de expatriados em Madri e promete o retorno glorioso para casa. Até aí, tudo conforme o manual antigo do exilado político. O detalhe que transforma comício em contrato é a confissão espontânea de que a volta está sendo articulada com apoio dos Estados Unidos. Pronto, o figurino caiu. Não é mais discurso de libertação nacional, é uma proposta comercial com trilha sonora emotiva.

Nenhum império da história mandou porta-aviões, sanções e operadores diplomáticos por amor à democracia alheia. Quem paga a logística do regresso escolhe o desenho do regime que vai receber, e quem recebe o carimbo de Washington assina, ainda que em tinta invisível, uma lista de concessões sobre o subsolo caribenho. A Venezuela flutua sobre a maior reserva comprovada de petróleo do planeta, e isso não é detalhe geográfico. É o motivo de toda a coreografia. Fingir que a preocupação norteamericana com a praça pública de Caracas nasce de um surto filosófico de amor à liberdade é o mesmo que acreditar que a Guerra do Ópio foi um programa educativo britânico sobre botânica asiática.

O chavismo arruinou o país, isso é fato evidente, e a ruína foi exatamente aquilo que sempre é: controle de preços, câmbio paralelo fabricado pelo próprio governo, confisco disfarçado de nacionalização, impressão descontrolada de papel e a velha engenharia de transformar empresa estatal em quintal de compadre. A moeda virou pó, os supermercados viraram museu, e a elite bolivariana virou proprietária de apartamentos em Madri e contas em Andorra, os mesmos lugares, curiosamente, onde hoje se reúne a oposição oficial. Quando o opressor e o salvador frequentam os mesmos restaurantes, o cardápio costuma ser o povo.

Há aqui um silogismo que nenhuma multidão emocionada quer ouvir. Se toda intervenção estrangeira cobra preço, e se a reconstrução anunciada depende de intervenção estrangeira, então a reconstrução virá com preço embutido. O preço nunca aparece no palco. Aparece três anos depois, em contratos de exploração com cláusulas de arbitragem em Nova York, em bases militares que ninguém lembra de ter autorizado, em dívidas soberanas contraídas em nome de um povo que mal sabia que estava sendo representado. Trocar o bolivarianismo podre por uma administração terceirizada não é libertação, é mudança de senhorio. O inquilino continua pagando, só muda o endereço do boleto.

A história latinoamericana é um museu bem iluminado desse tipo de troca. Cuba pré-Castro era feudo da United Fruit e dos cassinos de Havana, daí veio a revolução, daí veio a ditadura, daí veio o embargo, e sessenta anos depois o povo continua sendo a única variável que nunca ganha. Guatemala em 1954, Irã em 1953, Chile em 1973, todas operações vendidas como restauração da ordem democrática, todas terminando com multinacionais felizes e cemitérios cheios. O roteiro é tão repetido que deveria ter direitos autorais. E, no entanto, a praça de Madri aplaude como se estivesse assistindo a um filme inédito. Não está. É reprise com legenda nova.

A pergunta honesta, aquela que ninguém faz porque é deselegante em comícios, é simples. Se a oposição venezuelana fosse financiada apenas pela poupança de seus apoiadores legítimos, conseguiria alugar o palco em Madri, a assessoria de imprensa internacional, a passagem aérea, a segurança privada, o lobby em Bruxelas e o acesso ao Salão Oval? Evidente que não. Alguém paga. E quem paga o palco define a peça. O povo venezuelano merece o regresso à civilização, merece moeda honesta, merece direito de propriedade, merece supermercado cheio e cadeia para bandido de colarinho vermelho. O que ele não merece é trocar um cativeiro doméstico por uma hipoteca externa, aplaudindo de pé a assinatura da própria servidão. Quem paga a volta? E, sobretudo, quem recebe o país quando a poeira baixar?

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.