Há uma cena clássica em todo regime que se aproxima do precipício eleitoral: o governante, sentindo o cheiro do azedume nas ruas, convoca os escribas e manda redigir um manifesto. Não um plano, não uma prestação de contas, não uma linha sequer sobre o rombo no INSS que sangrou aposentado pobre, nem uma vírgula sobre o Banco Master e seu balé de bilhões com dinheiro público. Um manifesto. Um daqueles documentos solenes em que o partido governista posa de oposição a si mesmo, e o leitor desavisado quase acredita que quem está no poder há tempos é outra gente.

O eixo do tal manifesto, segundo o próprio enredo, é a reforma do Judiciário. Traduzindo do dialeto petista para o português dos mortais: queremos mexer na única instituição que ainda atrapalha minimamente nossos planos. Note a beleza do silogismo. Quem governa tem como primeiro interesse permanecer governando. O Judiciário, com todas as suas falhas barrocas, é o último obstáculo procedimental contra o avanço total do Executivo. Logo, propor reforma do Judiciário, no momento exato em que a popularidade afunda, não é zelo republicano, é remoção de empecilho. As coisas são o que são, não o que o comunicado de imprensa quer que sejam.

Pergunta inevitável, a única que importa em qualquer manifesto político: quem paga e quem recebe? Paga o sujeito que acordou às cinco da manhã para encarar dois ônibus, contribui compulsoriamente com a previdência, vê o salário derretido pela emissão monetária e ainda assim ouve o discurso de que precisa de mais Estado. Recebe o cabide de cargos, a indústria do financiamento partidário disfarçada de fundo eleitoral, a casta jurídica simpática, os bancos amigos que descobrem, vejam só, oportunidades fabulosas justamente quando o partido certo está no poder. Imposto cobrado à força chama-se confisco, subsídio entregue ao apadrinhado chama-se propina elegante, e reforma feita pelo réu chama-se autoanistia.

O silêncio sobre o Banco Master e o INSS não é descuido editorial, é confissão. Se o documento tivesse uma linha sequer sobre os descontos fraudados de aposentados, teria que admitir que o monopólio estatal da previdência produz exatamente isso: ralo perfeito para quem tem caneta na mão. Se mencionasse o caso do banco, teria que explicar por que instituição financeira de porte médio adquire de repente importância sistêmica e atenção ministerial digna de gigante. Como nenhuma dessas explicações cabe em manifesto eleitoral, omite-se. É o velho truque do mágico que aponta para a esquerda enquanto a mão direita esvazia o seu bolso.

Há ainda o detalhe retórico, esse vício nacional. Manifestos são escritos em linguagem de catedral para dar peso de tábua da lei a interesse de balcão. Quanto mais grandiloquente o vocabulário, mais raso o conteúdo, e mais provável que esteja escondendo um arranjo qualquer. Quando todos os bem pensantes do regime concordam que é hora de uma grande reforma, é precisamente a hora de desconfiar, porque consenso de palácio raramente coincide com interesse de quem mora longe dele. A história está cheia de líderes carismáticos que reformaram cortes, tribunais e câmaras com sorriso largo, e o desfecho dessas reformas costuma vir escrito em página de livro de história, não em manifesto de campanha.

Sobra ao contribuinte o de sempre: financiar a peça, aplaudir no palco certo, escolher entre máscaras que disputam o mesmo orçamento. O documento será reverenciado pela imprensa cortesã, decifrado por analistas de Brasília como se fosse texto sagrado, e em pouco tempo os mesmos que o assinaram estarão explicando, com cara séria, por que precisaram fazer o oposto. Enquanto isso, o aposentado do desconto indevido segue esperando o ressarcimento, o Banco Master segue gerando manchete oblíqua, e o manifesto segue, soberano, cumprindo sua única função real, que é encher página de jornal e esvaziar a memória do eleitor. Quem paga continua sendo o de sempre. Quem recebe, também.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.