A cena tem o sabor amargo da farsa. A bancada do Partido dos Trabalhadores na Câmara, em plena quinta-feira, sentou diante do teclado e redigiu uma nota indignada contra Flávio Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro pelo crime hediondo de sugerir aos americanos que facções criminosas brasileiras sejam tratadas como o que de fato são: organizações terroristas. Repare bem na escolha do inimigo. Não é a facção que decapita rivais em vídeos transmitidos pelo WhatsApp, não é o cartel que cobra pedágio das padarias do Jacarezinho, não é o crime organizado que substitui o Estado em centenas de comunidades. O inimigo, na engenharia narrativa do petismo, é quem ousa apontar o problema para fora do quintal.
Pergunta elementar, daquelas que destroem qualquer sofisma em três segundos: quem ganha quando uma facção brasileira não recebe o carimbo de organização terrorista nos Estados Unidos? Não é o trabalhador de São Gonçalo que paga taxa de gás clandestino, não é a senhora de Paraisópolis que vê o filho recrutado aos quinze anos, não é o comerciante de Manaus que fecha as portas mais cedo por ordem do tribunal do tráfico. Quem ganha é o operador financeiro da facção que precisa lavar dólares em Miami sem ser caçado pelo Tesouro americano, é o advogado que opera o caixa dois entre o Rio e Assunção, é o político que recebe doações de rota duvidosa em campanhas onde a urna decide quem manda no morro. Siga o dinheiro e você encontra a verdadeira razão da lágrima petista.
O argumento oficial é envernizado de patriotismo. Soberania nacional, ingerência estrangeira, vergonha internacional, eis o vocabulário de cartilha. Mas a lógica não fecha pelo simples teste do silogismo. Premissa maior: governo legítimo defende seus cidadãos contra a violência organizada. Premissa menor: classificar facções como terroristas amplia o cerco financeiro internacional contra essas facções. Conclusão inevitável: um governo que se opõe a essa classificação está, na prática, defendendo a liquidez do crime e não a integridade do cidadão. Não há saída retórica para essa conta. As coisas são o que são, não o que a nota oficial pinta no papel.
Houve tempo em que ditaduras de operetas latino-americanas faziam exatamente isso, abraçar contrabandistas em nome do anti-imperialismo, blindar narcotraficantes em nome da soberania, transformar guerrilheiros em prisioneiros políticos. O figurino mudou, o roteiro não. Quando o Estado se recusa a chamar de terrorista quem aterroriza, ele já escolheu de que lado está, e não é do lado do contribuinte que sustenta delegacia, hospital e escola com o próprio sangue tributário. A nota petista é a confissão involuntária de uma cumplicidade que se denuncia ao tentar se justificar.
O mais delicioso é o vocabulário escolhido. Articular junto aos Estados Unidos virou pecado capital, mas articular junto a Caracas, Havana, Pequim ou Teerã sempre foi diplomacia altiva, multilateralismo soberano, geopolítica madura. O critério não é a soberania, é o alinhamento ideológico. Quando convém à narrativa, abre se a porta. Quando incomoda o caixa, fecha se a fronteira. O cidadão comum, que paga imposto para que esse circo funcione, é tratado como espectador menor de idade, incapaz de notar que a indignação seletiva é o mais antigo dos truques do poder.
Resta a pergunta inicial, aquela que nunca envelhece. Quem paga essa nota? Paga o brasileiro que dorme com a porta trancada, o motorista de aplicativo que reza ao entrar em certas ruas, o pequeno empresário que entrega parte do faturamento ao crime para continuar de portas abertas. E quem recebe? Recebe quem precisa que o dinheiro do crime continue irrigando campanhas, ONGs convenientes, redes de proteção política e bancos amigos em jurisdições amigas. O rei está nu, e a nota oficial é o pano transparente que ele jurou ser veludo. Basta olhar.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.