Cinquenta e nove voos. Duas horas e vinte e sete minutos. Esse é o saldo heroico que a Eve Air Mobility, subsidiária da Embraer, vendeu ao país como se fosse o primeiro passo de Neil Armstrong na lua. Em termos práticos, é menos tempo no ar do que um voo de carreira entre São Paulo e Belo Horizonte, fracionado em pulinhos de helicóptero engravatado. Mas a manchete vem solene, com aquele ar de feito civilizacional, porque a engenharia da propaganda já entendeu há muito tempo que protótipo bonito rende fotografia, e fotografia rende verba.

Convém lembrar de onde nasce essa fada madrinha que faz carros voarem. A Embraer foi estatal, foi privatizada de meia-boca, recebeu BNDES por décadas, financiamento subsidiado a juros que nenhum padeiro brasileiro jamais sonhou em pleitear, e até hoje vive da teta da Caixa, do BNDES e dos fundos de pensão que carregam suas ações como quem carrega filho doente. Quem paga? O cidadão que financia o banco público com imposto, que financia o fundo de pensão com contribuição compulsória, e que ainda paga a tarifa de energia mais cara do hemisfério ocidental para sustentar o complexo industrial que produz brinquedo voador para milionário de Manhattan.

Porque é bom não se iludir com o discurso bucólico do transporte urbano do futuro. O eVTOL não é o ônibus do pobre. Cada unidade desses passarinhos custará alguns milhões de dólares, e a tarifa por voo ficará na faixa de cem a trezentos dólares para travessias de quinze minutos. Ou seja, o operário que pega quatro conduções para chegar ao serviço continuará pegando quatro conduções, só que agora terá a honra de ver passar, sobre sua cabeça, o executivo que evita o trânsito graças ao subsídio que o próprio operário pagou. Privatizam-se os lucros, socializam-se as pesquisas. Velho truque, novo verniz.

Há ainda o capítulo da regulação, que merece um parágrafo só dele. Quem decide se o carro voa? A ANAC. Quem decide quais corredores aéreos urbanos serão liberados? A ANAC, com prefeituras e ministérios penduriçando o pescoço para opinar. Resultado previsível: os primeiros alvarás sairão para quem tem advogado em Brasília e mesa cativa no Jockey, e o pequeno empresário que sonhasse competir no setor descobrirá, na quinta exigência cartorial, que essa porta nunca esteve aberta para ele. Regulação não protege o consumidor, escolhe o vencedor. E o vencedor, neste caso, está escolhido desde 1969.

O mais cômico é o ar de modernidade tecnológica que cerca a notícia, como se voar parado a três metros do chão fosse façanha inédita. Os irmãos Wright fizeram mais com bicicleta e madeira em 1903 do que esses protótipos com baterias de lítio importadas e marketing global. A diferença é que os Wright bancaram a brincadeira do próprio bolso, e quando caíram, caíram com o dinheiro deles. Aqui, quando o eVTOL cair, e algum cairá, o prejuízo será diluído no balanço da estatal disfarçada, absorvido por um aporte emergencial, e o contribuinte descobrirá pela coluna do jornal, três anos depois, que financiou a queda sem nem ter direito a assistir o voo.

No fim, fica a pergunta de sempre. Quem paga essa festa de duas horas e vinte e sete minutos de voo? O senhor, que paga IPVA para andar de carro no chão. Quem recebe? Os acionistas, os executivos com bônus atrelados a milestones de marketing, os bancos públicos que cobram comissão de estruturação, e os futuros passageiros bilionários que pousarão na cobertura do prédio enquanto o restante do Brasil discute se vai sobrar gasolina no posto. Carro voador é metáfora perfeita do capitalismo de compadrio brasileiro. Voa, mas só com vento estatal nas asas.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.