Cento e doze bilhões de dólares. Esse é o valor que colaram na testa da Zhipu AI, apresentada ao planeta como a maior desenvolvedora chinesa de modelos de inteligência artificial em receita. A imprensa repete o número com a mesma reverência com que antigamente se anunciava a colheita recorde de cereais no Politburo. Ninguém pergunta o óbvio: valor de mercado definido por quem, negociado em que praça, validado por qual investidor que possa dizer não sem perder o passaporte? Quando o preço de um ativo é fixado dentro de um sistema onde o comprador, o vendedor, o regulador e o juiz são a mesma entidade, aquilo não é avaliação, é decreto com perfume de planilha.

A engenharia financeira aqui é manjada e tem séculos de uso. Reis absolutistas faziam o mesmo quando precisavam impressionar embaixadores estrangeiros: enchiam o cofre com moeda emprestada do banqueiro da corte na véspera da visita, mostravam o ouro e devolviam tudo na semana seguinte. O truque chinês é mais sofisticado porque envolve fundos estatais disfarçados de capital privado, governos provinciais que aportam recursos por baixo da mesa contábil, bancos que liberam crédito sob ordem de quem manda no Comitê Central, e rodadas de investimento coreografadas para produzir uma curva ascendente que justifique manchete no Ocidente. Você não está vendo uma empresa, está vendo uma operação de relações públicas com balanço.

Siga o dinheiro e a fantasia desfaz. Quem paga pela Zhipu? O contribuinte chinês, o poupador chinês compulsoriamente confinado ao sistema bancário doméstico, o pequeno empresário sufocado de imposto para sustentar os campeões nacionais escolhidos a dedo pelo regime. Quem recebe? Os quadros do partido vinculados ao projeto, os engenheiros que aceitaram fazer parte do esforço de guerra tecnológica, os fundos soberanos que precisam mostrar resultado para Xi Jinping, e por extensão o aparato militar que vai usar esses modelos para vigilância, censura e sabe lá mais o quê. Subsídio não é generosidade, é confisco redirecionado. Cada yuan que vai para inflar a avaliação dessa empresa saiu antes do bolso de alguém que não foi consultado.

O detalhe deliciosamente cínico é o vocabulário importado. Eles falam em valuation, em rodada série C, em IPO, em todo aquele dialeto de Vale do Silício que pressupõe mercado real, concorrência real, falência real como hipótese viva. Nada disso existe lá. Empresa estratégica chinesa não quebra, ela é resgatada antes mesmo de saber que estava em risco. Concorrente desafeto não perde mercado, perde licença. CEO incômodo não é demitido pelo conselho, desaparece por noventa dias e reaparece pedindo desculpas em rede nacional. Chamar isso de capitalismo é como chamar casamento arranjado de paixão à primeira vista; a cerimônia é idêntica, mas a substância é o oposto exato.

E ainda assim a fofoca tecnológica ocidental compra o pacote. Analistas de Wall Street escrevem relatórios sérios sobre o avanço chinês em IA citando essas avaliações como se fossem termômetros honestos. É a velha doença de tratar propaganda inimiga como dado neutro, doença que custou caro no século passado quando se acreditou nos números da produção industrial soviética até o muro cair e mostrar que a metade era ficção e a outra metade era pior. Quem aceita métrica fabricada pelo regime que mede a si próprio merece o prejuízo que terá na próxima reavaliação, e essa reavaliação sempre chega, normalmente acompanhada de uma carta polida explicando que houve um ajuste contábil necessário.

No fim das contas, o que está em jogo não é se a Zhipu tem boa tecnologia, talvez tenha, alguns dos modelos são competentes. O que está em jogo é a normalização da farsa contábil como linguagem internacional dos negócios. Aceitar que um Estado pode decretar o preço de uma empresa e que essa decretação vale como avaliação de mercado é abrir mão da única coisa que torna o cálculo econômico possível, que é a formação livre de preços por agentes que arriscam o próprio capital. Sem isso, sobra encenação. Cara, encenação. Quem paga continua sendo o súdito anônimo do regime, quem recebe continua sendo a nomenklatura travestida de empreendedor, e quem aplaude do lado de cá da fronteira está só esperando a vez de ser enganado pelo próximo número redondo.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.