A empresária Roberta Luchsinger, amiga próxima de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, descobriu na pele uma verdade antiga que qualquer cortesão de salão palaciano já sabia desde os tempos em que reis distribuíam terras a aduladores: a proximidade do trono rende benesses nos dias de sol e investigações nos dias de chuva. Agora que o esquema bilionário do INSS começou a vazar pelas frestas, com aposentados sendo descontados em mensalidades fantasmas de associações que apareceram do nada para enriquecer gente conhecida, a moça aparece chorando nas redes dizendo que foi "criminalizada" por ter feito o pecado mortal de andar com o filho do presidente. O verbo, claro, está conjugado na voz passiva, porque na gramática do petismo ninguém faz, tudo acontece, e quando o cofre arromba sozinho sempre tem um inocente passando por perto.
Convém recordar a aritmética miúda do escândalo para não nos perdermos na poética da vítima. O INSS, essa instituição sagrada que vive da contribuição compulsória do trabalhador brasileiro, foi transformado em pasto particular onde associações de fachada pastavam tranquilas, mordendo o contracheque de velhinhos que nem sabiam ter se associado a nada. Bilhões evaporaram em descontos não autorizados, e o dinheiro, esse animal teimoso, sempre deixa pegadas. As pegadas, conforme se vai descobrindo, levam a sobrenomes que circulam pelos mesmos jantares, frequentam os mesmos cafés, postam as mesmas selfies sorridentes em viagens internacionais que o salário mínimo demoraria três encarnações para pagar.
A defesa da empresária é uma peça de antologia: ela nega qualquer envolvimento na fraude, atribui as suspeitas exclusivamente à amizade com o herdeiro presidencial e sugere que está sendo perseguida por motivos políticos. É curioso como, na cosmologia palaciana, sempre que a polícia bate na porta de alguém próximo ao poder a culpa é da polícia, nunca da porta. Se o argumento valesse, todo investigado do planeta seria automaticamente inocente, bastando declarar amizade com algum figurão para obter selo perpétuo de impunidade. A lógica, contudo, funciona ao contrário do que a moça gostaria: quando aparece um esquema bilionário e os nomes que circundam o poder começam a pipocar nos relatórios, a presunção de inocência continua existindo nos tribunais, mas a presunção de coincidência morre na primeira página do dossiê.
Há aqui uma confusão deliberada entre duas categorias que precisam ser separadas com bisturi. Uma coisa é ser amigo de alguém, outra coisa é fazer negócios na sombra de alguém. A primeira é liberdade de associação, direito sagrado de qualquer ser humano escolher com quem janta. A segunda é o uso da proximidade como capital político convertido em capital financeiro, atividade que tem nome técnico no dicionário e nome popular nas conversas de boteco. Quando uma empresária ganha contratos, abre portas, recebe convites, fecha parcerias e tudo isso acontece dentro do círculo concêntrico do poder federal, exigir explicações não é criminalização, é a função básica de qualquer sistema de fiscalização que ainda respire. Chamar isso de perseguição é o mesmo que o ladrão chamar a câmera de segurança de paparazzi.
A história brasileira tem uma coleção generosa desses momentos em que amigos do rei descobrem que a coroa pesa também no pescoço dos vassalos. No império, eram os fazendeiros de café que abriam crédito infinito na boca do imperador. Na República Velha, eram os coronéis que mandavam no Tesouro pelo correio. Hoje, são as empresárias de redes sociais que descobrem ONGs lucrativas, consultorias bilionárias e amizades estratégicas que rendem o que dez vidas de trabalho honesto não renderiam. A novidade não está no enredo, está na encenação: agora a aristocracia do dinheiro público se diz vítima quando o sistema de justiça resolve cumprir, ainda que mal e a contragosto, a função para a qual o contribuinte foi obrigado a pagar.
No fim, a pergunta que importa é sempre a mesma, aquela que a propaganda oficial tenta enterrar embaixo de manchetes lacrimosas e entrevistas comovidas: quem pagou e quem recebeu? O aposentado que teve trinta reais descontados sem autorização pagou. O trabalhador que vê seu salário desaparecer na folha pagou. As associações fantasmas receberam. Os intermediários receberam. Os amigos dos amigos receberam. E quando o circo desaba, aparecem as bailarinas dizendo que estão sendo "criminalizadas" por terem aceitado convite para a festa. Ninguém criminalizou amizade nenhuma. O que se está tentando criminalizar, com séculos de atraso e bilhões de prejuízo, é o esquema antiquíssimo de transformar caixa público em mesada de família e turma. Se isso constranger algumas amizades nobres, paciência. A República, quando ainda existe, deveria constranger mesmo.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.