Yan Hirano diz que foi roubado. Não usa essa palavra, porque advogados custam caro e a linguagem jurídica prefere eufemismos como "fraude em operações", mas a aritmética é simples: entrou dinheiro, não voltou, e do outro lado da operação havia gente ligada ao que viria a ser o Banco Master. Sessenta milhões de reais. Corrigidos pelo CDI, cento e oitenta milhões. O processo corre no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro com a velocidade característica das instituições que o brasileiro financia compulsoriamente e que, por pura coincidência, resolvem os problemas dos poderosos com mais agilidade do que os dos comuns.
Agora observe a geometria da situação. O Banco Master passou os últimos meses no centro de uma das maiores discussões sobre o sistema financeiro nacional, acusado de captar recursos de investidores com CDBs generosos demais para serem honestos, num esquema que jogaria o custo do eventual colapso sobre o Fundo Garantidor de Créditos, ou seja, sobre o sistema bancário, ou seja, em última instância, sobre você que tem conta em qualquer banco do país. A socialização dos prejuízos é o mecanismo favorito de quem privatizou os lucros. Isso não é novidade, é o modelo. A novidade é que agora um empresário alega que o problema não é recente: vem da origem.
Há uma lógica implacável em tudo isso que nenhuma nota à imprensa consegue disfarçar. Se uma instituição nasce de operações que um de seus interlocutores chama de fraudulentas em juízo, e se essa mesma instituição cresce captando recursos com rentabilidades que desafiam qualquer explicação ortodoxa, e se o desfecho natural desse crescimento seria ser absorvida por um banco público com dinheiro do contribuinte, então o ciclo está completo. O dinheiro entrou de um lado, girou, inflou, e o socorro viria do lado oposto, isto é, do cidadão que não participou dos ganhos mas foi convidado para a festa da conta. Roma fazia isso com as províncias. A diferença é que Roma não fingia que estava fazendo um favor.
O varejo da indignação nacional ficou concentrado nos CDBs e na eventual salvação pelo BRB. É compreensível, porque esses são os números grandes, os que aparecem nos noticiários com gráficos coloridos. Mas o processo de Hirano merece atenção exatamente porque ilumina o ponto cego: o que havia antes. Toda estrutura de poder tem uma pré-história que os comunicados oficiais preferem omitir. As fortunas que hoje se apresentam como resultado de talento e visão de mercado têm, quase invariavelmente, um episódio inaugural que não suportaria luz direta. Não é teoria conspiratória. É padrão histórico. Pergunte aos Médici, pergunte aos Fugger, pergunte a qualquer dinastia bancária que sobreviveu séculos: o primeiro dinheiro raramente foi limpo.
A questão jurídica vai tramitar, os advogados vão faturar, as audiências vão ser adiadas, e talvez em algum momento entre 2031 e o apocalipse o processo chegue a uma conclusão. Isso é o rito. O que não espera, ou não deveria esperar, é a pergunta que a imprensa raramente faz com a insistência necessária: quem, especificamente, se beneficiou dessas operações? Quem recebeu o dinheiro que Hirano diz ter perdido? Quem construiu patrimônio sobre essa fundação? O dinheiro não desaparece. Ele muda de mãos. E as mãos que o receberam têm nomes, endereços e, muito provavelmente, algum relacionamento com as instâncias regulatórias que deveriam ter impedido tudo isso lá no começo, quando ainda era possível.
O Brasil tem uma habilidade singular de transformar escândalos em burocracia. O que deveria ser uma investigação vira um processo, o processo vira um precedente, o precedente vira jurisprudência, e a jurisprudência estabelece que esse tipo de coisa é, afinal, complexa demais para ter culpado definido. O banco cresce, o fundador se torna personalidade do mercado, os que perderam dinheiro assinam petições em papel timbrado, e a máquina segue. Yan Hirano está no começo dessa jornada. Oxalá tenha fôlego suficiente, porque o sistema foi construído exatamente para esgotar quem ousa seguir o rastro até o fim.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.