Oitenta vírgula nove por cento. Esse é o percentual de famílias brasileiras enroladas em dívidas em abril de 2026, segundo a confederação que representa o comércio. Recorde da série histórica, o que significa, em bom português, que nunca antes neste país tanta gente acordou devendo tanto a tanta gente. E note bem o detalhe que ninguém comenta na televisão: o país não está em guerra, não houve peste bíblica, nenhum meteoro caiu em Brasília. A economia, segundo os boletins oficiais, vai bem, obrigado. O PIB cresce, o emprego formal sobe, a bolsa flerta com máximas. E no entanto, oito em cada dez lares pagam juros sobre juros sobre juros para chegar até o dia vinte do mês.

Há uma pergunta que o noticiário econômico se recusa a fazer, talvez por pudor, talvez por contrato: se a família média deve, e se o pequeno empresário deve, e se até o servidor estável deve, a quem, exatamente, esse povo todo deve? A resposta é desconfortável porque é simples. Deve ao sistema bancário concentrado em meia dúzia de sobrenomes, que opera sob licença concedida pelo mesmo Estado que cobra imposto sobre o salário antes que ele caia na conta, imposto sobre o consumo depois que ele cai, e imposto sobre o financiamento que o trabalhador é obrigado a fazer porque o salário, esmagado pelos dois impostos anteriores, não fecha o mês. É o moedor de carne com três lâminas girando em sentidos diferentes, e o boi sou eu, é você, é o sujeito do cartão estourado.

O truque é antigo e funciona desde que existe poder centralizado. Quando o império romano começou a raspar prata das moedas para financiar circo e legião, o cidadão não percebeu de imediato. Achou que o problema era o padeiro ganancioso, o vinhateiro especulador, o estrangeiro que cobrava caro. Demorou décadas até alguém juntar dois mais dois e perceber que o ladrão era o próprio césar, e que a alta de preços era a forma educada de chamar o confisco silencioso. Pois bem, o Brasil de 2026 vive a mesma comédia em versão digital. Imprime, gasta, endivida o tesouro, repassa a conta via inflação, juros e tributo, e depois publica nota oficial lamentando que as famílias estejam endividadas. Como se o incêndio fosse surpresa para o piromaníaco que segura o fósforo.

O detalhe sórdido é que o endividamento recorde beneficia diretamente quem o produz. Banco lucra com spread, governo lucra com IOF, financeira lucra com rotativo, e o varejo lucra empurrando parcelado em vinte e quatro vezes aquilo que o sujeito não tem como pagar à vista porque o dinheiro dele evaporou no caminho entre o contracheque e o boleto. Cada vez que alguém atrasa, alguém ganha. Cada vez que alguém renegocia, alguém ganha de novo. É o único negócio do mundo em que a falência do cliente é parte do modelo de receita, e ainda assim o discurso oficial vende isso como inclusão financeira. Inclusão de quem, na carteira de quem, isso ninguém detalha no folder colorido do banco central.

A perversão lógica é digna de manual. Dizem que o brasileiro se endivida porque consome demais, gasta mal, não tem educação financeira. Quem ouve, sente vergonha e compra um curso de planilha. Mas a aritmética é cruel e indiferente ao sermão moralista. Se o Estado consome metade do que a economia produz, se a carga tributária come quase quarenta por cento do que cada um ganha, se a moeda perde poder de compra todo trimestre por decisão deliberada da autoridade monetária, então o endividamento não é falha de caráter da dona de casa, é resultado matemático de um arranjo que extrai mais do que devolve. Culpar o devedor pela dívida nesse cenário é como culpar o afogado por não nadar enquanto se joga concreto no tornozelo dele.

Quem paga, no fim, é sempre o mesmo: o sujeito que produz algo de útil, acorda cedo, cumpre contrato, paga o que deve e ainda assim termina o mês no vermelho. Quem recebe também é sempre o mesmo: a aliança não escrita entre o poder que regula, o poder que empresta e o poder que tributa, três cabeças do mesmo cão que late para o pobre quando ele atrasa o carnê e abana o rabo para o amigo do rei quando ele precisa de socorro bilionário. Oitenta vírgula nove por cento não é estatística, é confissão. Confissão de que o modelo funciona perfeitamente, só que para o outro lado do balcão.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.