Existe uma expressão que o sistema financeiro adora repetir com voz de terapeuta: "crédito consciente". É uma daquelas frases que servem para colocar no consumidor a culpa de uma armadilha que foi construída antes de ele sequer entrar na loja. A família que hoje deve no cartão, no crediário, no consórcio e no empréstimo pessoal não acordou um dia decidida a se endividar até o pescoço. Ela foi guiada, parcela por parcela, por um sistema cuidadosamente desenhado para transformar renda em servidão. A diferença entre o endividamento barulhento, aquele que vira notícia, e o endividamento silencioso é apenas o volume do choro: o resultado final é o mesmo.
O mecanismo é quase elegante na sua crueldade. A parcela pequena não provoca rejeição imediata porque o cérebro humano avalia o custo pelo impacto do momento, não pelo custo acumulado ao longo do tempo. Duzentos reais por mês parece trivial. Cinco contratos de duzentos reais por mês é a diferença entre pagar o aluguel ou não. O varejo sabe disso, o banco sabe disso, a fintech com nome simpático e juros absurdos sabe disso. Por isso a linguagem do crédito é sempre a linguagem da parcela, nunca a linguagem do total. "Leve hoje por apenas dezoito prestações de noventa e nove reais" é uma frase construída para que você não faça a conta. E na maioria das vezes, você não faz.
Mas aqui está a pergunta que ninguém faz no artigo de autoajuda financeira: por que o crédito é tão barato de obter e tão caro de pagar? A resposta está num fenômeno que afeta tudo que você compra sem que apareça no extrato: a inflação. Quando o custo de vida sobe mês após mês, a poupança perde sentido prático. Guardar dinheiro num país onde os preços correm mais rápido do que o salário é como carregar água numa peneira. A lógica do endividamento, portanto, não é irracional, é uma resposta adaptativa a um ambiente monetário viciado. Quem criou esse ambiente? O mesmo Estado que agora financia campanhas de "educação financeira" com dinheiro público, como se o incendiário distribuísse folhetos sobre prevenção de incêndio.
O sistema bancário brasileiro opera com a proteção mais generosa que o poder político pode oferecer: regulação que afasta concorrentes, garantias públicas em caso de crise e uma política de juros que, curiosamente, nunca prejudica quem empresta, apenas quem toma emprestado. O spread bancário brasileiro é um dos maiores do planeta. Isso não é coincidência nem ineficiência: é política. Cada ponto percentual que a família paga a mais no crédito rotativo é um ponto percentual que vai para um balanço que remunera acionistas. A família silenciosamente endividada não está sofrendo uma fatalidade, está sendo sistematicamente ordenhada dentro de uma estrutura que o Estado garante e protege. O nome bonito disso é "sistema financeiro nacional". O nome honesto é cartel com carimbo de aprovação ministerial.
A saída proposta pelos especialistas de plantão é sempre comportamental: gaste menos, anote tudo, faça planilha, corte o cafezinho. É o mesmo conselho que os romanos dariam aos escravos que reclamavam do trabalho forçado: sejam mais produtivos. O problema não é que a família brasileira não sabe fazer planilha. O problema é que ela vive numa economia onde a moeda perde valor por decreto, onde o crédito fácil substitui o salário que não veio, onde cada imposto embutido no preço do produto é invisível mas real, e onde a única instituição com poder de mudar isso tem todo incentivo para não mudar nada. Porque o Estado, seus bancos públicos e seus aliados privados lucram com a dívida perpétua do cidadão comum. A família endividada em silêncio não é vítima de si mesma. É vítima de quem projetou o labirinto e escondeu a saída.
Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.