O escândalo não é a prisão dos rapazes do funk paulista. O escândalo é que ninguém precisou grampear telefone, infiltrar agente, seguir carro, montar campana. Bastou pedir educadamente à empresa de Cupertino o conteúdo da conta na nuvem, e veio tudo: conversas, fotos, áudios, contatos, geolocalização, planilha de despesas, cardápio do almoço. Trinta e nove mandados de prisão, quarenta e cinco buscas em oito estados, uma operação federal inteira armada em cima de um backup automático que o usuário sequer lembra ter ativado. A maior delação premiada da história brasileira não foi feita por nenhum criminoso arrependido. Foi feita por um servidor remoto na Califórnia.

Convém olhar para o arranjo sem romantismo. O sujeito paga, todo santo mês, uma mensalidade para uma corporação multinacional guardar os pedaços mais íntimos da vida dele em computadores que ele nunca viu, em jurisdição que não é a dele, sob contratos que ninguém leu. Em troca, recebe a comodidade de trocar de aparelho sem perder as fotos do cachorro. Parece negócio bom. Só que, nas letras miúdas que rolam por sessenta telas no instante da instalação, está escrito com todas as palavras: a empresa coopera com autoridades. Cooperar, em bom português, significa entregar. E quando o pedido vem com timbre oficial, vira na hora. O cliente paga para ser vigiado e ainda acredita que adquiriu privacidade.

É a velha história do cavalo de madeira deixado à porta da cidade. Os troianos não foram conquistados pela força bruta dos gregos, foram conquistados pela própria vontade de ter um presente bonito dentro de casa. A engenhoca chegou embrulhada em conveniência, eles mesmos puxaram para dentro dos muros, e dormiram tranquilos achando que tinham vencido a guerra. O smartphone moderno é o cavalo, a sincronização automática é o ventre oco cheio de soldados, e o Estado é o exército que esperava do lado de fora a hora certa de entrar. A diferença é que, em Troia, ninguém pagou pelo cavalo. Aqui, paga-se mensalidade.

Note o silogismo silencioso que sustenta o teatro. Toda comunicação digital armazenada por terceiros está, por definição, fora do controle do dono. Tudo que está fora do controle do dono é entregável mediante ofício judicial, requisição administrativa ou simples acordo de cooperação. Logo, comunicação digital armazenada por terceiros é, na prática, comunicação pública com atraso programado. Pouco importa se o conteúdo é confissão de crime, declaração de amor, foto de família ou recibo de padaria. A premissa vale para todos, criminosos e cidadãos comuns, traficantes e padres, deputados e desempregados. Hoje cai o funkeiro, amanhã cai o jornalista incômodo, depois cai o empresário que financiou o candidato errado. A ferramenta é a mesma, o procedimento é o mesmo, a obediência da empresa é a mesma.

E aqui mora a comédia mais amarga do nosso tempo. O brasileiro que aplaude a operação porque odeia funk, aplaude a operação porque odeia traficante, aplaude a operação porque adora ver bandido na cadeia, é exatamente o mesmo brasileiro que carrega no bolso o equipamento que o entregará no dia em que sua opinião deixar de ser conveniente. A vigilância não escolhe ideologia, escolhe oportunidade. Os mesmos servidores que hoje cospem áudios de baile funk amanhã cospem mensagens de grupo de WhatsApp da família, planilha de Excel do escritório, rascunho de carta nunca enviada. A infraestrutura não tem partido. Tem cliente.

Quem paga e quem recebe, no fim das contas? Paga o usuário, em moeda corrente e em alma. Recebe a corporação, em mensalidade. Recebe o Estado, em provas servidas em bandeja sem precisar gastar um real com investigação de campo. E recebe o gestor de plantão, seja ele de farda, de toga ou de gravata, o poder absoluto de saber tudo sobre todos sem ter de pedir licença. A prisão dos rapazes é só o anúncio. O recado, esse, é para você que está lendo isto agora pelo celular.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.