Toda vez que aparece um substantivo novo grudado na palavra "pobreza", prepare o bolso. Primeiro foi a pobreza menstrual, depois a pobreza energética, agora chega a pobreza de refrigeração, e o ciclo é sempre idêntico: um estudo bem diagramado, uma manchete compassiva, uma série de seminários em hotel cinco estrelas e, no fim da linha, um projeto de lei criando rubrica, secretaria, comitê interministerial e, claro, imposto novo para custear a solução de um problema que o próprio Estado fabricou. O calor existe desde que o planeta gira, mas a indústria da indignação climática urbana é recentíssima, e convém olhar para ela com a mesma desconfiança com que se olha para vendedor de enciclopédia em porta de igreja.

Comece pelo óbvio que ninguém quer dizer em voz alta. Por que tanta gente mora em barraco de telha de fibrocimento empilhado em encosta? Porque décadas de zoneamento delirante, código de obras kafkiano, IPTU progressivo e burocracia fundiária tornaram impossível ao trabalhador comum comprar ou construir uma casa decente em região com infraestrutura. O sujeito que poderia ter laje, ventilação cruzada e árvore na calçada foi empurrado para a periferia da periferia justamente pelos mesmos planejadores urbanos que agora descobrem, chocados, que faz calor lá. É o incendiário voltando ao local do crime fantasiado de bombeiro, pedindo aplausos e orçamento.

Siga o dinheiro, que é o exercício mais higiênico que existe em política pública. Quem ganha com a criação oficial da categoria "pobreza de refrigeração"? As ONGs que vão administrar programas de distribuição de ventilador. As universidades que vão produzir relatórios encomendados. As empresas que vendem ar-condicionado de baixa eficiência subsidiado por tarifa social. Os burocratas que vão ocupar as novas cadeiras criadas no organograma. E, no topo da pirâmide, os políticos que terão mais um botão emocional para apertar em véspera de eleição. Quem paga? O mesmo de sempre, o sujeito da classe média baixa que trabalha doze horas por dia, paga setenta por cento de tributo embutido em tudo que consome e ainda escuta no jornal que é privilegiado porque tem geladeira.

A lógica é elementar e por isso mesmo evitada nos editoriais bem-comportados. Se moradia precária aumenta o risco térmico, a resposta civilizada é permitir que se construa moradia boa, barata e em quantidade. Isso significa liberar terreno, simplificar licença, acabar com a indústria do alvará e devolver ao proprietário o direito de erguer parede sem pedir bênção a sete repartições. Mas essa solução tem um defeito imperdoável aos olhos do planejador, ela dispensa o planejador. Por isso a proposta nunca é destravar o mercado imobiliário, é sempre criar um auxílio-ventilador, um vale-sombra, um bônus-brisa, qualquer coisa que mantenha o cidadão dependente e o funcionário público empregado.

Há ainda o capítulo cultural da farsa, e ele merece risada antes do diagnóstico. A mesma intelectualidade que combate a expansão da rede elétrica, embarga hidrelétrica, demoniza ar-condicionado em escritório, sabota termelétrica e canta hosana à conta de luz que triplicou por causa de bandeira tarifária inventada, agora se comove porque o pobre passa mal no calor. É como o sujeito que serra o galho onde está sentado e depois processa a gravidade. A coerência exigiria pedir desculpas e sair de cena, mas a coerência nunca foi virtude da casta que vive de salvar os outros com dinheiro alheio.

No fim, "pobreza de refrigeração" é o nome novo de um fenômeno antiquíssimo chamado empobrecimento por excesso de governo. Não se resolve sufoco com mais regulação, do mesmo modo que não se apaga incêndio com gasolina premium. Resolve-se devolvendo às pessoas o direito de produzir, construir, contratar energia barata, escolher onde morar e gastar o próprio salário sem que metade evapore antes de chegar em casa. Enquanto isso não acontecer, vão continuar inventando pobrezas adjetivadas, e nós, contribuintes, vamos continuar suando, agora com a agravante de também pagar o ventilador do vizinho e o salário do sociólogo que escreveu o estudo provando que precisávamos pagar.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.