O roteiro é velho como a república de bananas. Sobe à tribuna o legislador de origem humilde, narra as calosidades da infância, invoca o engraxate, o cortador de cana, o apanhador de algodão, e conclui que por isso, e somente por isso, está autorizado a decidir o destino do salário alheio. É a liturgia perfeita do populismo brasileiro, aquele em que a biografia vira credencial moral permanente e a credencial moral vira cheque em branco para legislar sobre o bolso dos outros. O sujeito sofreu, logo pode mandar. O sujeito foi pobre, logo entende tudo de economia. O silogismo é grotesco, mas funciona, porque no Brasil a lógica foi substituída há tempos pela comoção.
Ora, o passado humilde de um parlamentar diz exatamente o seguinte sobre sua capacidade legislativa: nada. Absolutamente nada. Ter cortado cana não ensina ninguém a ler uma planilha fiscal, não revela os efeitos de segunda ordem de um salário mínimo artificial, não explica por que o tributo que o patrão recolhe sai, ao final do mês, do contracheque do empregado. A experiência pessoal é preciosa para construir caráter, não para desenhar política tributária. Confundir as duas coisas é como pedir ao sobrevivente de um naufrágio que projete o próximo transatlântico. Ele sabe que afogar é ruim. O resto é engenharia, e engenharia não se aprende na lavoura.
E aqui entra a parte que os discursos solenes jamais mencionam, porque destruiria o espetáculo. Quando o defensor do trabalhador aprova a gentil bondade do encargo trabalhista a mais, do imposto sobre a folha, da contribuição obrigatória ao sindicato que ninguém pediu, quem paga? O patrão não paga, porque repassa no preço. O consumidor paga, e o próprio trabalhador paga no salário líquido que nunca chega, no emprego formal que não nasce, na carteira assinada que virou artigo de luxo. A bondade legislativa é sempre financiada pelo mesmo sujeito que ela pretende proteger, apenas com uma etapa intermediária de propaganda no meio. Chama-se confisco indireto, e tem funcionado muito bem para os intermediários desde que o mundo é mundo.
Convém lembrar que toda oligarquia moderna aprendeu o truque dos romanos tardios: pão e circo pagos com o trigo do próprio povo, distribuído pelo senador que se apresenta como salvador daquela mesma plebe que ele sangra em impostos. O legislador contemporâneo, vestido de defensor dos humildes, é o herdeiro direto daquele patrício que jogava moedas na multidão depois de cobrar o tributo do grão. A diferença é só a retórica, mais sofisticada, mais lacrimosa, mais televisiva. A estrutura é idêntica. Alguém produz, alguém confisca, alguém redistribui o que sobra cobrando pedágio no caminho, e no fim do mês o cofre do intermediário cresce enquanto o engraxate de hoje continua engraxate.
O teste honesto para qualquer parlamentar que jura defender o trabalhador é elementar e dispensa biografia. Basta abrir o painel de votação e olhar. Votou a favor de mais impostos sobre consumo, que pesam proporcionalmente mais sobre o pobre? Votou a favor de regulação que eleva barreira de entrada e protege o monopólio estabelecido contra o pequeno empreendedor que quer virar patrão? Votou a favor de gastança financiada por emissão monetária, que corrói o salário antes mesmo de ser depositado? Se votou, a autobiografia não salva ninguém. Julga-se a árvore pelo fruto, não pela foto da muda plantada na fazenda onde o orador diz ter sofrido. E os frutos, quase sempre, são azedos para o mesmo pobre que serviu de pretexto ao discurso.
Fica então a pergunta original, a única que interessa nesta coluna e em qualquer análise séria de política pública. Quem paga e quem recebe? Paga o trabalhador real, o que levanta cedo, o que não tem tribuna, o que carrega nos ombros o peso de cada virtuosa intenção legislativa convertida em desconto no holerite. Recebe o parlamentar que transformou o sofrimento pretérito em capital eleitoral perpétuo, recebe o sindicato que vive do imposto compulsório, recebe o burocrata que administra o programa social, recebe o intelectual de corte que escreve o elogio do arranjo. O trabalhador continua sendo, como sempre foi, o único que trabalha de verdade na equação. E o engraxate de ontem, agora no plenário, aprende rápido que é muito mais lucrativo engraxar a consciência alheia do que sapato.
Com informações da Pleno News. A análise e opinião são do O Algoz.