Duas semanas debaixo da terra, água até o teto, e a notícia que chega é a de equipes buscando uma nova entrada na caverna porque a antiga virou um cano de pressão. Cinco saíram, dois continuam lá, e o roteiro é o mesmo de sempre quando o homem encontra a geografia sem intermediários: silêncio do governo, barulho dos voluntários, e a conta sendo paga por quem nunca apareceu na coletiva.
Repare na coreografia. O turista, o aventureiro, o explorador, todos entram na fenda atrás de algo que o asfalto não oferece, e quando a fenda se fecha, quem desce a corda não é o ministro, não é o secretário de turismo, não é o burocrata que carimbou a licença ambiental. Quem desce é o mergulhador anônimo, frequentemente estrangeiro, frequentemente custeado por iniciativa privada, frequentemente arriscando o próprio pulmão por desconhecidos. A solenidade do poder fica em cima, de terno seco, dando entrevista sobre esforços coordenados. Lá embaixo, na lama, o esforço tem nome, sobrenome e seguro de vida pago pela família.
É curioso como o Estado moderno construiu uma teologia em que ele é o salvador universal, o pai providente, o único capaz de organizar a vida coletiva, e basta uma caverna inundada para a coisa desmoronar. A premissa é simples: se o monopolista da força fosse de fato o protetor que vende ser, ele teria estrutura de resgate permanente, equipamento próprio, equipes treinadas. A conclusão é inevitável: não tem. Quem tem são clubes de mergulho, ONGs especializadas, militares emprestados de outros países, e a velha rede informal de gente que faz porque alguém precisa fazer. O resto é cerimônia.
A trilha do dinheiro, aliás, costuma ser reveladora nesses episódios. O orçamento do turismo é gastado em campanha publicitária para atrair o visitante. O orçamento da segurança é gastado em fardamento e viatura para a capital. O orçamento da defesa civil aparece em relatório, raramente em equipamento de ponta. Quando a tragédia bate, descobre-se que a rede de salvamento real é financiada pela boa vontade alheia, e que o aparato estatal serve, no melhor cenário, para liberar o espaço aéreo e segurar o microfone. Subsídio para foto, escassez para resgate.
Há também a lição que ninguém quer ouvir nestes tempos de paternalismo regulatório. Existe risco no mundo. A caverna não foi inundada porque faltou decreto, faltou comissão, faltou marco regulatório. Foi inundada porque chove, porque a rocha tem porosidade, porque a terra é mais antiga que qualquer parlamento e segue funcionando segundo leis que não passam por votação. Quando se vende a fantasia de um Estado capaz de eliminar todo risco, cria-se o cidadão que entra na gruta achando que tem garantia de retorno, e a família que, na hora do desastre, exige do contribuinte do outro lado do planeta que pague a operação. O risco foi privado na ida, ficou socializado na volta.
Que se torça pelos dois homens lá embaixo, e que se reconheça quem realmente está fazendo o trabalho, com a cara molhada e o oxigênio contado. Esses não passarão na propaganda do governo. Passarão, no máximo, num obituário discreto, se a montanha decidir cobrar pedágio. Quem pagou pela aventura? Os próprios. Quem paga pelo resgate? Quase nunca quem deveria. Quem receberá os créditos políticos se der tudo certo? Adivinhe.
Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.