O navio MH Hondius atracou neste domingo no porto de Granadilla, em Tenerife, e a Espanha iniciou o desembarque dos cerca de cento e cinquenta passageiros submetidos ao protocolo de praxe diante de um suposto surto de hantavírus a bordo. Não houve mortos, não houve hospitais lotados, não houve cenas de hecatombe. Houve, sim, o ritual completo: cordão sanitário, autoridades de jaleco posando para as câmeras, manchete em letras garrafais e, no dia seguinte, no sábado, a aparição quase litúrgica do diretor da organização sanitária global declarando coisas graves sobre a saúde do planeta. Coincidência de calendário, claro. Sempre é.
Convém parar um instante e perguntar o que é, afinal, um hantavírus. É uma família de vírus transmitida por roedores, conhecida há décadas, com letalidade variável e nenhuma característica que justifique o tratamento de ameaça civilizacional. O contágio interpessoal, na maioria das cepas, é raríssimo ou inexistente. Ou seja, isolar passageiros de um navio inteiro pelo aparecimento de alguns casos é como interditar um shopping porque um cliente espirrou na praça de alimentação. Mas o exagero não é falha do sistema, é o sistema. O exagero é o produto, e o produto vende.
Pergunta indelicada que ninguém faz nos telejornais: quem ganha quando uma embarcação vira manchete mundial por um punhado de doentes? Ganha o burocrata sanitário, que justifica seu salário, sua estrutura, seu próximo orçamento inflado. Ganha a indústria farmacêutica, sempre pronta a oferecer o teste, o reagente, o futuro imunizante experimental contra o bicho da vez. Ganha a imprensa, que vive de adrenalina alheia. Ganham os organismos internacionais, que aproveitam cada susto para reivindicar mais poder vinculante sobre Estados nacionais já dóceis. E quem paga? O turista trancafiado, o armador multado, o contribuinte espanhol que sustenta a operação, e o cidadão comum, que aprende mais uma vez a baixar a cabeça quando o homem de gravata diz que é por sua segurança.
O esquema lógico é simples e devastador quando se tem coragem de enxergá-lo. Toda autoridade sanitária precisa de doentes para existir, do mesmo modo que todo bombeiro precisa de incêndio. A diferença é que o bombeiro apaga o fogo e vai embora; o sanitarista contemporâneo, não. Ele transforma o incêndio em religião, o doente em fiel, o medo em dízimo. Foi assim na peste medieval, quando bispos e nobres lucraram com indulgências enquanto a plebe sangrava nas valas comuns. Foi assim em cada pânico do século passado, da gripe asiática à gripe suína, sempre com previsões catastróficas que não se cumpriam e contas astronômicas que se cumpriam pontualmente. O figurino muda, o enredo é idêntico.
Note a sincronia, que não é acidental. Enquanto o cruzeiro se transforma em parábola televisiva, o burocrata-mor da saúde global aproveita o microfone aberto para falar genericamente sobre ameaças emergentes, preparação pandêmica, cooperação internacional vinculante. Tradução fiel do dialeto: mais dinheiro para a estrutura dele, mais poder de veto sobre seu sistema imunológico, mais capacidade de decretar, lá de Genebra, o que você pode ou não fazer dentro de casa. O hantavírus do MH Hondius é apenas o pretexto pitoresco da semana, o cartaz colado na porta do teatro. A peça, essa, é a mesma há muito tempo, e a bilheteria continua engordando porque o público, hipnotizado, não larga a poltrona nem para perguntar o preço do ingresso.
Os passageiros vão descer, fazer testes, contar a história aos netos. A vida em Tenerife seguirá. Mas ficará no ar, como sempre fica, a lição que ninguém ousa enunciar em voz alta: o medo é a moeda mais rentável jamais inventada, e o monopólio de cunhá-la pertence, há muito, aos mesmos cofres. Enquanto não se exigir prestação de contas de cada decreto sanitário, de cada manchete apocalíptica, de cada conferência internacional financiada com dinheiro alheio, o cruzeiro do medo continuará atracando em algum porto, e nós, dóceis, continuaremos aplaudindo o capitão que nos confina.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.