Há uma certa elegância involuntária no absurdo. Eduardo Bolsonaro, ex-deputado federal que desde o início do ano desfruta do clima ameno do exílio americano para não ter de enfrentar os processos que o aguardam no Brasil, tomou a palavra nesta segunda-feira para expressar sua esperança de que a Justiça norte-americana aja com a máxima celeridade no caso de Alexandre Ramagem, preso pelo serviço de imigração dos Estados Unidos. Leiam de novo, sem pressa: um homem que abandonou o mandato, o país e o sistema judiciário brasileiro para não ser processado está pedindo velocidade a um sistema judiciário estrangeiro para soltar seu aliado. A geometria moral desse pedido é de tirar o fôlego.
Sigamos o fio lógico, que aqui é mais revelador do que qualquer acusação: se o Estado é instrumento de perseguição quando mira os amigos de Eduardo, por que não o é quando age em favor deles? A resposta está justamente nessa inconsistência sem pudor. O Estado, para quem pensa dessa forma, não é um princípio, é uma ferramenta. Quando a ferramenta corta do lado certo, ela é "a Justiça agindo". Quando corta do lado errado, ela é "lawfare", "perseguição política", "aparelhamento". Ramagem preso é "absurdo". O adversário preso é "a lei cumprindo seu papel". Não existe aqui uma filosofia coerente de poder: existe conveniência pura, embalada em vocabulário constitucionalista para consumo das plateias fiéis.
Ramagem, para quem não acompanhou, não é figura sem história. Nomeado diretor-geral da Polícia Federal em 2020 numa operação que o próprio Supremo barrou por suspeita de que a nomeação servia para proteger aliados do então presidente, Ramagem acumulou sobre si uma quantidade considerável de atenção institucional ao longo dos anos. A prisão pelo ICE nesta segunda-feira tem seus próprios contornos que a apuração revelará, mas o que interessa aqui não é o mérito jurídico do caso, e sim o espetáculo de Eduardo Bolsonaro, instalado confortavelmente nos Estados Unidos com status de exilado político, defendendo publicamente alguém detido pelas autoridades desse mesmo país que o acolhe. Há uma palavra para isso: atrevimento. Outra: gratidão seletiva.
O mecanismo é antigo e funciona porque as pessoas têm memória curta. O político poderoso foge da responsabilidade quando ela se aplica a si mesmo e clama por responsabilização quando ela se aplica ao adversário. Quando a toga serve, ele abraça a toga; quando a toga incomoda, ele denuncia a toga como politizada. Roma viu isso em Cícero e nos irmãos Graco. A Inglaterra viu isso em cada aristocrata que defendia o rule of law até o momento em que o law bateu na porta da sua propriedade. O Brasil está vendo agora, ao vivo, com cobertura nas redes sociais e declarações para a imprensa.
O pedido de Eduardo pela "mais rápida liberação" de Ramagem é, no fundo, a confissão mais sincera que esse campo político já fez: eles acreditam no Estado forte, interventor e enérgico, desde que o braço forte aponte na direção certa. Não é liberalismo, não é conservadorismo, não é nada com princípio identificável. É poder querendo proteger poder, vestido com a roupa que for mais útil na hora. Quem paga? O contribuinte americano que financia o ICE. Quem recebe? Depende do que acontecer nos próximos dias. Mas quem ficará sem resposta, como sempre, é o cidadão comum que acreditou que havia uma ideia por trás do espetáculo.
Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.