Existe algo revelador no fato de que o programa se chama "sem firula". A palavra é quase um manifesto involuntário. Firula, no fundo, é a camada de verniz decorativo com que se disfarça a ausência de substância, o recurso do incompetente para parecer sofisticado, do covarde para parecer prudente. Que um programa de esportes precise anunciar que não tem firula já diz tudo sobre o estado do restante da programação, aquela que veste paletó e gravata para falar de política, economia e "questões relevantes para a cidadania". Nesses programas, a firula não é defeito, é a matéria-prima principal.
O comentarista esportivo vive ou morre pela opinião. Se ele errar a análise, o jogo prova que errou. Se elogiar o técnico errado, a tabela classifica a bobagem. Não há decreto presidencial que mude o resultado de um clássico, não há medida provisória que transforme um pênalti em gol. O esporte é um dos poucos domínios que ainda resiste à narrativa, porque o árbitro apita e o marcador não negocia. Isso impõe ao comentarista uma disciplina que o analista político jamais precisou desenvolver: a de ser responsabilizado pela realidade concreta, objetiva, verificável. No campo político, a realidade pode sempre ser "contextualizada", "matizada" ou "compreendida em seu conjunto histórico", que é o nome bonito que se dá para fugir do placar.
Pense no que aconteceu com o jornalismo de assuntos públicos nas últimas três décadas. Concentrou-se em cinco ou seis grandes grupos, cada qual amarrado a concessões públicas de rádio e televisão, a crédito subsidiado de banco estatal, a contratos de publicidade governamental. A matemática é simples e antiga: quem paga os músicos escolhe a música. O veículo que recebe do governo federal vinte, trinta, quarenta milhões por ano em anúncios institucionais não vai mandar nenhum repórter investigar com seriedade o governo federal. Isso não é teoria conspiratória, é contabilidade básica. A firula, nesse ambiente, não é vício de estilo, é condição de sobrevivência financeira. O âncora que "contextualiza" demais e "aprofunda" demais o que convém ao poder está apenas protegendo a linha de crédito da empresa.
O esporte ficou relativamente imune a isso por uma razão simples: o torcedor não tolera servilismo. O sujeito que pagou pelo canal, que acordou cedo para ver o jogo, que discute a escalação com o cunhado há três dias, esse não quer ouvir elogio envergonhado nem crítica coberta de ressalvas diplomáticas. Ele quer saber se o centroavante é bom ou ruim, se o técnico errou ou acertou, se o árbitro roubou ou não roubou. A pressão do público esportivo é a única forma de controle de qualidade que restou ao jornalismo brasileiro. Nenhuma ouvidoria, nenhum conselho de ética, nenhuma recomendação de "boas práticas" jamais funcionou tão bem quanto o torcedor que desliga o programa quando o comentarista fica em cima do muro.
Há nisso uma lição que vai muito além do futebol. A liberdade de opinião não é sustentada por declarações de princípios nem por estatutos de associações de imprensa. É sustentada pela independência econômica de quem opina. O comentarista que depende exclusivamente da audiência tem um chefe invisível mas absolutamente soberano: o público. Já o analista que depende de concessão estatal, de publicidade governamental ou de favor regulatório tem um chefe muito mais concreto, muito mais específico e muito mais interessado no que ele diz. Não é preciso receber um telefonema do ministério. Basta saber de onde vem o dinheiro para saber o que não pode ser dito.
Portanto, quando um programa anuncia que vai ao ar "sem firula", com opinião e debate, talvez o gesto mais honesto seja reconhecer o que essa promessa significa no contexto atual: é a afirmação de que ainda existe espaço onde alguém fala o que pensa sem calcular antes o impacto no balanço do trimestre. Esse espaço sobreviveu no esporte porque o esporte ainda tem um juiz que ninguém suborna com decreto e um placar que ninguém renegocia com portaria ministerial. Quem paga é o torcedor. Quem recebe é quem merece sua atenção. Essa cadeia de responsabilidade é o único arranjo sadio que ainda existe no jornalismo brasileiro, e ela sobreviveu por acidente, não por virtude de ninguém.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.