O espetáculo é digno de ópera bufa. Um senador da República cruza o Atlântico, aperta a mão do presidente dos Estados Unidos, e imediatamente uma comitiva de deputados de esquerda saca do bolso a queixa-crime, corre à Procuradoria-Geral da República e pede a cabeça do colega. O crime? Conversar. O agravante? Conversar com quem eles não gostam. A acusação, traduzida do juridiquês para o português que se fala no boteco, é simples: ousou existir politicamente fora do script. E o script, todos sabemos, é escrito a quatro mãos entre o Planalto e certos gabinetes togados que já não escondem mais a militância sob a capa preta.

Quem paga essa brincadeira? Você, evidentemente. Cada petição protocolada, cada despacho assinado, cada audiência marcada para examinar a gravíssima ameaça à democracia consistente em um político conversar com outro político consome horas-homem pagas com tributo arrancado do trabalhador que acorda às cinco da manhã. Quem recebe? Os profissionais do escândalo permanente, que descobriram que é mais barato terceirizar o adversário para a Procuradoria do que enfrentá-lo no voto. Perderam a eleição majoritária, perderam o Senado, perderam fatias generosas da Câmara, e agora querem reverter no tapetão o que não conseguiram reverter na urna. É a velha tática do jogador que, vendo o placar contra, chuta a mesa e exige que o juiz anule a partida.

O detalhe deliciosamente revelador é a seletividade. Quando ministros do atual governo cruzam fronteiras para abraçar ditadores caribenhos, posar com regimes que estampam fome nos cartões-postais e prendem opositores em masmorras tropicais, ninguém protocola coisa nenhuma. Silêncio sepulcral. Mas que um senador da oposição troque cortesias com o líder eleito da maior democracia do planeta, ah, aí a República treme, as instituições se abalam, a pátria periga. A régua, como sempre, tem dois lados, e o lado que mede o adversário é feito de aço cirúrgico, enquanto o que mede o aliado é de borracha derretida ao sol.

Há uma lógica perversa, mas lógica, no arranjo. Se uma facção política descobre que pode usar o aparelho judicial como tropa auxiliar, por que se daria ao trabalho cansativo de convencer eleitor, fazer campanha, debater ideia? Basta plantar a denúncia, esperar o despacho amigo, vazar para a imprensa amiga, e pronto: o adversário está sangrando antes mesmo de chegar à urna. É o assassinato de reputação por encomenda, terceirizado para um Poder que deveria ser árbitro e virou jogador, e dos mais agressivos. Quem perde é a República, esse arranjo frágil em que três Poderes deveriam vigiar-se mutuamente, e não três Poderes vigiando a oposição enquanto o governo aplaude.

O nome técnico disso, na história política, é faccionalização das instituições. Acontece sempre que um grupo, certo de sua superioridade moral, decide que as regras valem para os outros mas não para si. Aconteceu em Roma quando o Senado virou clube de Otaviano. Aconteceu na França quando o Comitê de Salvação Pública passou a definir quem era cidadão e quem era inimigo do povo. Aconteceu na Argentina peronista, na Venezuela chavista, e está acontecendo aqui, no Brasil de 2026, com requintes tropicais e juristas que confundem toga com bandeira partidária. O fim conhecido dessas histórias nunca é bonito, e raramente sobra alguém de pé para escrever o epílogo com isenção.

A pergunta que precisa ser feita, e repetida até furar tímpano, é esta: quem ganha com a perseguição judicial ao adversário político? Não é o eleitor, que perde alternativa. Não é o contribuinte, que financia o teatro. Não é a democracia, que vira fachada. Ganham os que precisam do Estado grande, opaco e armado para manter privilégios que jamais sobreviveriam à concorrência leal de ideias. Ganham os burocratas vitalícios, os contratos sem licitação, os auxílios maquiados de salário, os foros que blindam os iguais. O resto de nós paga, cala e finge que isso ainda se chama República.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.