O cenário tem a graça involuntária das melhores comédias políticas. Um apartamento funcional em Brasília, mobiliado com dinheiro arrancado à força do bolso do pedreiro, do garçom e da costureira, vira salão de recepção para o representante diplomático de um regime que há sessenta e cinco anos transforma a fome em projeto de governo. Servem cachaça, brindam, sorriem para as fotos. O detalhe delicioso é que a cachaça, símbolo nacional do trabalhador livre que destila o que planta, é oferecida ao embaixador de um país onde plantar para vender ainda é, na prática, pecado mortal contra a revolução.
Convém olhar para o arranjo com a frieza de um perito em necropsia. Quem paga o apartamento onde aconteceu o encontro? O contribuinte. Quem paga o salário dos parlamentares presentes? O contribuinte. Quem paga a passagem, a segurança, a estrutura diplomática que recebe o enviado de Havana? O contribuinte. E quem recebe? Recebe o regime que mantém médicos como semiescravos exportados a peso de ouro, embolsando o salário e devolvendo migalhas ao profissional. Recebe a casta militar verde-oliva que possui hotéis, lojas e dólares enquanto a vizinha racionada conta gramas de arroz. A festa é privada, dizem. Privada coisa nenhuma. Não há nada de privado num jantar pago, do canapé ao brinde, pela mesma fonte que financia o desfile da miséria que esses anfitriões fingem combater.
A lógica é elementar e por isso mesmo escandalosa. Se a propriedade privada é roubo, como rezam o catecismo, por que então o apartamento funcional, o carro funcional, o salário funcional? Se o povo é o soberano, por que o brinde é com o burocrata estrangeiro e não com o motorista de aplicativo de Niterói? Se a denúncia constante é contra o capital, por que o capital cubano sempre tem razão quando esmaga padre, poeta, drag queen, dissidente negro e mulher que ousou pedir absorvente? Toda premissa que esses parlamentares enunciam em público desmorona quando confrontada com o que praticam em particular. Resta a conclusão única e inevitável: a doutrina não é princípio, é fantasia. Serve para a tribuna, não para a vida.
História é professora cruel para quem se recusa a estudar. Em mil novecentos e trinta e sete, intelectuais europeus brindavam em Moscou enquanto a NKVD enchia valas comuns. Nos anos setenta, o jet set parisiense aplaudia Pol Pot enquanto Phnom Penh era esvaziada na marra. Em mil novecentos e oitenta e nove, ministros do Leste ainda discursavam sobre a vitória do socialismo na semana em que o muro virou pó. Sempre a mesma cena: gente bem vestida, taça na mão, sorrindo para o representante do açougue. A diferença é que agora o açougue fica numa ilha tropical e o brinde acontece em Brasília, com cachaça produzida por um país que, ironicamente, deve sua relativa prosperidade exatamente àquilo que os anfitriões juram destruir.
Há ainda a questão do silêncio seletivo, esse músculo que a esquerda festiva treina com afinco olímpico. Onde estavam essas vozes quando jovens cubanos foram presos por gritar pátria e vida? Onde estavam quando o regime cortou internet para abafar protesto de fome? Onde estavam quando médicos brasileiros denunciaram que tinham passaporte confiscado e família refém em Havana? Calados, como sempre. O silêncio é a moeda mais barata de uma militância que se vende cara. E quem cala, no caso, não consente apenas: assina embaixo, com letra de forma, do outro lado do oceano.
No fim da noite, recolhidas as taças, o embaixador volta para sua residência oficial e os deputados para o apartamento que o pagador de imposto sustenta. A cachaça evapora, a ressaca fica. Fica também a pergunta que esses brindes nunca conseguem afogar: quem paga essa festa de afetos pela tirania, e quem recebe a conta do espetáculo? O pagador é sempre o mesmo, o trabalhador anônimo que não foi convidado. O recebedor também é sempre o mesmo, a casta política que descobriu que defender ditadura alheia rende voto, cargo e jantar de graça. O resto é cachaça.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.