Noventa e sete vírgula um por cento. Esse é o percentual de moradores de Dourados, no Mato Grosso do Sul, que vivem em ruas com pelo menos uma árvore, conforme o Censo 2022. Não é um dado de condomínio fechado para quem herdou sobrenome e conta em Zurique: é a média da cidade inteira, construída no cerrado por gente que veio trabalhar, plantar e fincar raiz em solo que, antes deles, era só mato e promessa. Enquanto isso, São Paulo, o Rio de Janeiro e Brasília, com seus orçamentos municipais que fariam corar um principado europeu, com suas secretarias de meio ambiente urbano e seus planos diretores de arborização que rendem manchete a cada quatro anos, entregam o que qualquer morador do centro expandido conhece de cor: calçada quebrada, sarjeta entupida, e de árvore, quando aparece uma, é esforço do vizinho, não do Estado.

A contradição não é acidental. É o fruto natural de uma lógica que o poder nunca vai admitir publicamente, porque admiti-la implica reconhecer sua própria inutilidade. Cidades que se constroem à margem da atenção federal, que não figuram no mapa das prioridades do Ministério das Cidades nem nas pautas dos congressistas que trocam emenda por voto, são obrigadas a funcionar com o que têm. E o que Dourados tem é uma economia ancorada na produção real, no ciclo que vai da terra ao mercado sem passar obrigatoriamente pela mão do intermediário estatal. Quando o dinheiro que circula numa cidade vem majoritariamente do trabalho e não da transferência compulsória, quem mora lá tende a cuidar do que é seu; inclusive da calçada em frente à porta, inclusive da muda de ipê que o vizinho ajudou a plantar. Propriedade cria pertencimento, pertencimento cria civilização, e civilização não se decreta.

As grandes cidades que a história registrou como funcionais e belas, quando ainda eram governadas por cidadãos com pele no jogo, não precisavam de uma autarquia de parques e jardins para manter as praças limpas e os pórticos sombreados. Os que construíam eram os mesmos que usavam, e os que usavam tinham interesse direto em conservar. Foi quando o poder se centralizou, quando o Estado passou a fornecer tudo e todos passaram a depender de alguém acima para qualquer coisa, que as cidades começaram a apodrecer. Não metaforicamente: literalmente. As ruas acumularam lixo, as estruturas pararam de ser mantidas, e os governantes continuaram nos seus palácios diagnosticando a decadência como se ela fosse fenômeno climático, não resultado previsível de uma arquitetura institucional que separou o habitante do destino do seu próprio espaço.

Brasília gastou, só em 2023, cifras próximas de dois bilhões de reais em obras de infraestrutura urbana. O Rio de Janeiro opera com orçamento municipal superior a trinta bilhões. São Paulo gasta mais por habitante do que a maioria dos países da América Latina inteiros. O que se vê, em qualquer rua comum dessas cidades, é a evidência viva de que dinheiro público não compra qualidade, porque dinheiro público não tem dono, e o que não tem dono não tem guardião. Dourados, com uma fração desses recursos, com menos atenção política do que um vereador de capital recebe numa tarde de quinta-feira, chegou a 97,1% de cobertura arbórea nas ruas. A pergunta que ninguém quer fazer em voz alta é simples: por quê? A resposta, que qualquer pessoa honesta alcança em poucos minutos de reflexão, é inconveniente demais para caber num press release ministerial.

O Censo 2022 não está celebrando uma política pública bem-sucedida. Está documentando, sem querer, o fracasso das políticas públicas em escala nacional. Está mostrando que quando uma comunidade produtiva se organiza em torno do trabalho concreto, quando não há suficiente Estado para atrapalhar nem suficiente dependência para amolecer o caráter cívico de quem mora ali, o resultado é uma cidade onde se consegue respirar em 97,1% das ruas. Dourados não virou o que é porque alguém planejou que ela virasse. Virou porque as forças que constroem coisas duráveis operam melhor quando o planejador está ocupado demais com outras cidades para notar sua existência. Isso não é argumento contra o planejamento urbano: é argumento contra a ilusão, reiterada a cada ciclo eleitoral com crescente desfaçatez, de que planejar é sinônimo de construir, e de que gastar é sinônimo de realizar.

Com informações d'O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.