Existe um momento muito particular na decadência de uma civilização em que o governo para de governar e começa a nomear. Nomear pobreza de "inclusão social". Nomear endividamento de "acesso ao crédito". Nomear estagnação de "estabilidade". E nomear miséria relativa de "classe média baixa". O Brasil chegou a esse momento faz tempo, mas toda vez que um novo estudo sai definindo faixas de renda e encaixando famílias em categorias, vale a pena parar e perguntar: a quem serve essa classificação? Porque os romanos já sabiam, quando inventaram o censo, que contar o povo não era gesto de cuidado, era gesto de controle. Quem está catalogado está disponível, tanto para o recruta quanto para o coletor de impostos.

A metodologia, naturalmente, varia conforme quem financia o estudo e qual narrativa precisa de suporte naquela semana. Em geral, fala-se em renda domiciliar, não per capita, o que já é uma distorção de entrada. Uma família de dois adultos sem filhos que soma determinada renda vive em condição radicalmente diferente de uma família de cinco pessoas com a mesma entrada bruta. O detalhe "bruta" também importa e muito, porque o Estado brasileiro tem o talento raro de fazer a renda encolher antes mesmo de chegar à mesa. O trabalhador recebe o salário já sangrado pelo INSS, pelo Imposto de Renda, pelos encargos que seu empregador pagou para tê-lo trabalhando. O que sobra é classificado como renda. E sobre esse sobra, ainda incidem o ICMS embutido em cada produto do mercado, o ISS em cada serviço, o PIS e o COFINS repassados ao preço. Quando o economista diz que o brasileiro na faixa de classe média baixa ganha "X reais por mês", está descrevendo o que o Estado permitiu que chegasse às mãos do cidadão depois de recolher a sua parte. Chama isso de classe média com a mesma honestidade intelectual de quem chama de "livre" um homem algemado por apenas um pulso.

Há uma perversidade adicional que os classificadores de plantão jamais mencionam, porque mencioná-la seria inconveniente demais. A inflação não incide de forma igual sobre todas as faixas de renda. Quem ganha pouco gasta proporcionalmente muito mais com alimentação, transporte e energia elétrica, exatamente os itens que subiram com maior brutalidade nos últimos anos. Então o número em reais pode até ter crescido, a faixa nominal pode ter avançado, o gráfico do PowerPoint da consultoria pode mostrar uma curva otimista. Mas o poder real de compra, a capacidade concreta de adquirir carne, pagar o ônibus, manter a conta de luz e ainda sobrar algo para uma eventualidade médica, esse poder foi corroído com uma eficiência que qualquer ladrão profissional admiraria. A inflação é o imposto que dispensa aprovação parlamentar, não consta no carnê, não tem nome no boleto, mas aparece todo mês no caixa do supermercado com uma pontualidade que o serviço público jamais alcançou.

O mais cínico de tudo é que a classificação serve a um propósito político muito preciso. Quando o governo quer expandir um programa, a "classe média baixa" precisa ser numerosa o suficiente para justificar o gasto. Quando quer mostrar avanço social, a faixa precisa ter crescido em relação ao governo anterior. Quando quer defender uma política tributária que onera a produção, a "classe média" vira o escudo retórico de quem na prática tributa o trabalho para sustentar a máquina. A categoria não descreve uma realidade social, ela a fabrica para consumo político imediato. Aristóteles, que entendia de política como poucos que vieram depois, dizia que o sofista é aquele que usa a aparência do argumento no lugar do argumento. O que os institutos produzem, quando encomendados pelo Estado ou por quem dele depende, é a aparência da análise no lugar da análise. Números reais, metodologia manipulável, conclusão predefinida.

Enquanto isso, a família real, a de carne e osso que acorda às cinco da manhã, pega duas conduções, trabalha oito horas, volta às oito da noite, paga as contas que não aumentaram no mesmo ritmo do salário e ainda tenta guardar algum troco para quando o filho adoecer, essa família não precisa de classificação. Ela precisa de um Estado que custe menos, taxe menos, regule menos, imprima menos e minta menos. Precisa que o dinheiro que sobra nas mãos dela retenha valor na semana seguinte. Precisa que o filho que estudou possa competir num mercado que não seja monopolizado por quem tem padrinho na licitação. A pergunta que o estudo de renda nunca faz é a única que importa: quanto dessa renda ficaria no bolso de cada brasileiro se o aparato que mede, regula, redistribui e consome existisse pela metade? A resposta daria uma outra classe média, muito menos baixa e muito mais real.

Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.