A equação é esta: (18 – 3 × 4) ÷ 2². Simples, direta, resolvível por qualquer criança de doze anos que tenha aprendido o que precisa aprender. O resultado correto é 1,5. Primeiro resolvem-se os parênteses, mas dentro deles a multiplicação tem precedência sobre a subtração, logo 3 × 4 = 12, e 18 – 12 = 6; depois eleva-se 2 ao quadrado, obtendo 4; por fim, 6 ÷ 4 = 1,5. Não há ambiguidade, não há interpretação, não há "depende do contexto". Há uma regra, ela existe por razões precisas, e quem não a conhece erra. Ponto. O problema, claro, não é a equação. O problema é que milhões de brasileiros com diploma na parede erram essa conta e, ao errarem, não sentem vergonha, sentem raiva do problema.

Esse fenômeno tem nome técnico na pedagogia: confusão entre precedência de operadores. Mas tem também um nome moral, que os pedagogos evitam pronunciar porque a palavra os constrange: ignorância. Não a ignorância inocente de quem nunca teve acesso, mas a ignorância fabricada de quem passou anos dentro de uma instituição pública de ensino, consumiu décadas de orçamento federal, estadual e municipal, e saiu sem saber que multiplicação tem prioridade sobre adição. Pergunte a qualquer pessoa que erra essa conta quando ela estudou álgebra básica. A resposta invariável é: "estudei sim". Então o problema não é ausência de escola. É escola que não ensina.

O Estado brasileiro gasta, em números redondos, mais de 6% do PIB em educação, percentual superior ao de países cujos alunos dominam cálculo, lógica e argumentação desde o ensino médio. O dinheiro existe, flui, é orçado, é empenhado, é liquidado, aparece nas notas de empenho com toda a pompa burocrática, e a criança sai do sistema sem saber resolver uma equação de grau zero de complexidade. Quando se pergunta para onde foi o dinheiro, encontra-se a resposta na proliferação de secretarias, coordenadorias, núcleos pedagógicos, assessorias de diversidade curricular, superintendências de educação integral e outros organismos que nunca estiveram numa sala de aula mas que produzem, com admirável consistência, resoluções normativas sobre a importância do protagonismo estudantil. O dinheiro foi para o aparato. O aluno ficou para trás.

Há uma lógica perversa nesse arranjo que merece ser dita sem rodeios: uma população que não domina operações básicas de matemática é uma população que não consegue auditar um contrato, verificar uma nota fiscal, calcular os juros compostos do crediário, entender o que significa uma alíquota de 27,5% sobre a renda ou perceber que o IPVA, o ICMS embutido no combustível, o PIS e a COFINS acumulados na cesta básica, as contribuições compulsórias ao sistema S e a contribuição previdenciária somadas representam uma parcela absurda do salário que ela "recebe". A matemática não é ornamento cultural. É o instrumento básico pelo qual um cidadão verifica se está sendo roubado. Retirar esse instrumento das mãos do povo não é negligência pedagógica. É política.

O que mais irrita não é nem a ignorância em si, tolerável nos seus limites humanos, mas a celebração da ignorância como fenômeno coletivo tranquilizador. "Todo mundo erra essa conta" é a frase com que os portais noticiam o assunto, e o subtexto implícito é: se todos erram, ninguém precisa se envergonhar. É a democratização do fracasso como consolo. Civilizações que prosperaram fizeram o oposto, exigiram que seus jovens dominassem a lógica antes de opinar sobre o governo da cidade, entendendo que o raciocínio mal calibrado produz decisões mal calibradas, e decisões mal calibradas em escala coletiva produzem tirania. Não a tirania de botas e fuzis, mas a tirania suave e administrativa de quem sabe calcular e governa quem não sabe.

A equação (18 – 3 × 4) ÷ 2² é, portanto, um teste diagnóstico de algo muito maior do que matemática. É o termômetro de um sistema que falhou deliberadamente ou fez escolhas que produzem o mesmo resultado que a falha deliberada produziria. Quando a conta não fecha na cabeça do cidadão, ela fecha com muito mais facilidade no orçamento de quem o governa. A ordem das operações existe na matemática para garantir que todos cheguem ao mesmo resultado verdadeiro. Na política brasileira, a desordem das operações garante que poucos cheguem ao resultado, e esses poucos são sempre os mesmos.

Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.