Existe no Suriname um sapo que faz algo tão extraordinário que, se fosse descrito sem imagens, qualquer pessoa sensata chamaria de mentira. A fêmea do Pipa pipa, o sapo-do-Suriname, carrega os ovos fertilizados incrustados na própria pele do dorso. Ali, dentro de pequenas cavidades que se formam no tecido vivo da mãe, os embriões se desenvolvem por completo, atravessam todo o estágio de girino protegidos do mundo exterior e só emergem quando já são sapos formados, prontos para a vida. Sem creche, sem programa social, sem repasse de verba federal. A mãe literalmente entrega o próprio corpo como infraestrutura e, quando os filhotes saem, estão aptos a sobreviver. O processo inteiro é de uma eficiência que humilharia qualquer planejador central.

O que torna esse bicho digno de coluna não é apenas a curiosidade zoológica, que por si só já valeria o espanto. É o contraste obsceno com o que nós, seres humanos supostamente superiores, construímos para cuidar das nossas crias. O sapo-do-Suriname opera com um sistema descentralizado, autossuficiente, sem intermediários, sem burocratas decidindo quantos filhotes cabem por centímetro quadrado de dorso, sem formulário em triplicata para autorizar a metamorfose. Cada fêmea resolve o problema com os recursos que tem, no tempo que a biologia exige, sem pedir licença a ninguém. Compare isso com o labirinto de secretarias, conselhos tutelares, programas de transferência de renda e ministérios com orçamentos do tamanho do PIB de países africanos que o aparato estatal brasileiro montou para, no fim das contas, entregar filas, ineficiência e desvio de finalidade.

A natureza, quando deixada em paz, encontra soluções que nenhum gabinete climatizado jamais conceberia. O sapo não pediu financiamento do BNDES para desenvolver essa tecnologia reprodutiva. Não houve edital de pesquisa, não houve licitação para a construção do berçário dorsal, não houve comissão interministerial para definir protocolos de incubação. A evolução, esse mecanismo cego e impiedoso que premia o que funciona e elimina o que não funciona, chegou a uma solução elegante, econômica e brutalmente eficaz. Enquanto isso, o Estado brasileiro gasta bilhões por ano em programas cuja principal função verificável é empregar os apadrinhados do governo de turno e gerar estatísticas bonitas para coletiva de imprensa.

A lição do sapo, se é que bichos dão lições, é que proteção verdadeira não exige aparato. Exige pele no jogo, literalmente. A mãe do Suriname não terceiriza, não delega, não cria uma fundação com CNPJ e diretoria remunerada para fazer o que ela mesma pode fazer melhor. E quando os filhotes saem, saem prontos. Não saem dependentes, não saem pedindo auxílio, não saem precisando de mais quatro programas governamentais para completar a transição. Saem sapos. Funcionais. Independentes. Esse conceito, o de criar seres que um dia não precisem mais de você, parece ter se perdido em algum lugar entre a boa intenção e a máquina de votos que todo programa assistencialista inevitavelmente se torna.

Não deixa de ser irônico que um anfíbio achatado, com olhos minúsculos e aparência de quem foi atropelado por uma carroça, consiga demonstrar com mais clareza o princípio da responsabilidade individual do que qualquer discurso de palanque já proferido neste país. O sapo-do-Suriname não promete nada. Não faz campanha. Não aparece em horário eleitoral dizendo que vai transformar o dorso num berçário de excelência. Ele simplesmente faz. E funciona. Se algum burocrata de Brasília tivesse a mesma taxa de sucesso na entrega de resultados, já teriam feito estátua dele na Esplanada. Mas burocratas não operam sob a pressão da seleção natural; operam sob a proteção do orçamento público, que é a única espécie de pele que eles colocam no jogo, a dos outros.

Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.