O governo entregou o Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2027 com a pose de quem traz boas novas, e a resposta veio rápida do próprio jornalão paulista, historicamente paciente com a ala palaciana: superávit de mentirinha. A palavra é essa mesmo, mentirinha, no diminutivo condescendente que se usa para criança que inventa desculpa de dever de casa. O Planalto promete equilibrar as contas com uma sequência de premissas que, colocadas em pé, não sustentam nem o próprio peso. Crescimento otimista, receitas extraordinárias que viraram ordinárias, despesas congeladas num universo paralelo onde servidor não ganha reajuste e emenda parlamentar não existe. O cenário fiscal é irrealista, diz o editorial. Irrealista é eufemismo educado para fraude contábil.

A pergunta que nenhum ministro quer ouvir é a mais simples do mundo: quem paga essa conta e quem embolsa o resultado? A conta é sua, leitor, pagador de imposto que trabalha de janeiro a junho só para sustentar a máquina antes de começar a trabalhar para si. O resultado vai para a clientela habitual, a base parlamentar que exige emenda, o sindicato que exige reajuste, o banco que exige juros da dívida, a burocracia que exige cargo comissionado. O superávit prometido é a cenoura de papel pendurada na frente do jumento chamado mercado financeiro, que finge acreditar para não derrubar o preço dos títulos que ele próprio carrega na carteira. Todo mundo finge junto, porque o fingimento coletivo é a moeda mais estável emitida em Brasília.

Há uma lógica primária que qualquer feirante entende e que o ministério da Fazenda pretende driblar com planilha: se a despesa obrigatória cresce em ritmo acelerado e a receita depende de decisão judicial, de leilão de ativo, de venda de patrimônio, de repatriação milagrosa, então o resultado primário projetado não é previsão, é desejo. Desejo não é política fiscal, é oração. E governo que reza por receita costuma terminar sacando do bolso alheio quando o santo não atende. Aí vem a taxação do que ainda não foi taxado, a criação do imposto que ainda não existe, a revisão do benefício que o pobre-diabo recebia, a mordida nova no assalariado que já foi mordido doze vezes. A conta sempre fecha, só não fecha no lado de quem prometeu.

Os impérios antigos caíam quando o fisco ficava criativo demais. Quando o denário passou a ter mais chumbo do que prata, quando o emperador precisou confiscar propriedade de senador para pagar legionário, quando a receita deixou de bastar para a despesa e a solução foi debasar a moeda, o fim já estava escrito, faltava apenas os bárbaros atravessarem o rio. O Brasil vive sua versão tropical do mesmo roteiro, com a diferença de que aqui os bárbaros já estão dentro da cidade, usam terno e gravata e ocupam cadeira em comissão mista de orçamento. O truque da desvalorização da moeda nunca saiu de moda, só trocou de nome: agora se chama meta de inflação flexibilizada, alívio monetário, estímulo contracíclico, qualquer eufemismo que disfarce o fato de que o poder de compra da sua geladeira caiu outra vez.

O mais saboroso da cena é a solenidade com que o governo apresenta a peça ficcional. Há uma cerimônia, há gráficos coloridos, há ministro de pasta recém-criada explicando em tom professoral por que dessa vez é diferente. Nunca é. A mesma categoria de gente que prometeu superávit no ano passado e entregou déficit, que prometeu inflação controlada e entregou alimento caro, que prometeu crescimento sustentável e entregou estagnação com taxa de juros de dois dígitos, sobe ao palco para vender o próximo milagre. A plateia aplaude, o jornal pergunta se ninguém mais enxerga a nudez do monarca, e o monarca responde nomeando mais um secretário para cuidar da comunicação do guarda-roupa imaginário.

No fim, a única pergunta que importa continua a mesma do início, porque a resposta nunca muda. Quem paga é quem produz, quem acorda cedo, quem emite nota fiscal, quem desconta no contracheque. Quem recebe é a corte, com seus cortesãos, suas benesses, seus cargos, seus contratos, suas dívidas roladas à custa do pagador silencioso. Superávit de mentirinha é o nome técnico do assalto planejado para o ano que vem, apresentado em papel timbrado, com assinatura de autoridade e carimbo oficial. O carimbo não torna honesto o que é roubo, torna apenas legal. E nessa distinção miudinha mora toda a comédia, e toda a tragédia, da república.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.