O dado é seco e quase constrangedor para quem gosta de épicos: na história inteira da seleção paraguaia em copas do mundo, apenas um homem conseguiu balançar a rede mais de duas vezes. Não é tragédia, é aritmética. E aritmética, ao contrário de discurso esportivo, não admite maquiagem. Enquanto federações vizinhas constroem mitologias de bilhões em torno de craques que mal jogam, o Paraguai oferece o que tem, sem prospecto fraudado, sem balanço inflado, sem promessa de retorno que não vai entregar.
Há algo profundamente saudável nessa modéstia estatística. O futebol sul-americano se acostumou a tratar a seleção como empresa estatal de propaganda, aquela coisa antiga em que o governante exibe o troféu como se tivesse chutado a bola. Cada gol vira ativo político, cada eliminação vira pretexto para reforma, cada convocação vira disputa de poder nos bastidores. O Paraguai, com seu acervo enxuto de artilheiros, escapa por baixo dessa máquina de mentir. Quando você não tem o que vender, ninguém compra você.
O leitor desavisado pode achar que estatística de gols é assunto de almanaque, daqueles que enchem página de jornal em véspera de jogo. Engano. Toda estatística esportiva carrega um arranjo econômico embutido. Quem paga a estrutura que produz artilheiros? Patrocínio, direitos de transmissão, dinheiro público disfarçado de fomento, clube que sobrevive de isenção fiscal, federação que vive de cota da FIFA. Quem recebe? Cartola, agente, intermediário, advogado de transferência, dirigente que nunca driblou ninguém e mora em cobertura. O craque é a ponta visível de um esquema longo, e a escassez paraguaia talvez seja consequência direta de um esquema menos engordado pelas costas do contribuinte.
Compare com a Roma decadente que financiava jogos no Coliseu para distrair a plebe enquanto a moeda derretia. O circo era caro, e o circo era política. O futebol moderno repetiu o truque com estádios bilionários, leis de incentivo, perdão de dívidas tributárias a clubes quebrados, ministério do esporte transformado em balcão. Os países que mais glorificam suas seleções costumam ser os que mais saqueiam o próprio povo para sustentar a glória. Quando a torcida grita gol, alguém, em algum lugar, está pagando a conta sem nem assistir ao jogo.
O artilheiro solitário paraguaio, o tal que ousou passar dos dois gols, vira então símbolo involuntário de uma virtude esquecida: a honestidade do resultado magro. Não há narrativa salvacionista, não há geração de ouro a cada quatro anos, não há promessa de hegemonia continental para justificar mamata. Há um time, há uma camisa, há um homem que marcou gols a mais que os outros, ponto. Essa frugalidade estatística é mais digna que qualquer hexa imaginário vendido em propaganda institucional. O troféu da sinceridade não tem patrocinador, e por isso ninguém o exibe.
Resta a pergunta inicial, a única que importa em qualquer assunto público, inclusive em futebol. Quem paga a fábrica de seleções e quem recebe a glória embolsada? No Paraguai, a resposta é menor e por isso mais limpa. Nas potências midiáticas do continente, a resposta é uma planilha que ninguém quer ler. Talvez o time mais honesto da América do Sul não seja o que mais ganha, mas o que menos mente sobre o que é capaz de fazer.
Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.