Mil seiscentas e trinta e nove. Não é estatística abstrata, não é dado demográfico, não é número em relatório de organização que ninguém lê. São mil seiscentas e trinta e nove pessoas que acordaram numa manhã e foram conduzidas por funcionários pagos pelo contribuinte iraniano até uma forca, uma parede ou uma injeção, e então deixaram de existir por ordem do Estado. O Irã bateu o próprio recorde. O maior número de execuções desde 1989, aquele 1989 que os historiadores preferem lembrar pela queda do Muro e não pelo massacre dos prisioneiros políticos persas que abriu o caminho para este marco. Parabéns à República Islâmica. Produtividade impressionante.

Toda vez que um número assim vaza para o noticiário internacional, assiste-se ao mesmo teatro. Organizações de direitos humanos divulgam o relatório com linguagem cuidadosamente técnica, jornais ocidentais publicam matéria na editoria de internacional entre uma notícia de Copa e outra de mercado financeiro, diplomatas emitem notas de "profunda preocupação", e o mundo segue girando na mesma velocidade. A pergunta que ninguém faz em voz alta é a única que importa: quem está comprando petróleo iraniano hoje? Quem financiou a importação de componentes industriais que passaram por rota alternativa? Quem, afinal, mantém viva a economia do regime que paga os salários dos carrascos? Siga o dinheiro e você encontrará a cumplicidade que a linguagem diplomática se recusa a nomear.

O Estado, qualquer Estado, é fundamentalmente um arranjo de violência monopolizada e legitimada pela narrativa. A diferença entre um Estado "civilizado" e uma teocracia que enforça 1.639 pessoas num ano é apenas de grau, não de natureza. O que o Irã faz com uma corda e uma forca, outros fazem com regulações que destroem meios de vida, com inflação que confisca poupanças, com guerras que recrutam compulsoriamente jovens para morrer por fronteiras que nenhum deles traçou. A forca iraniana tem a virtude da honestidade: ao menos você vê quem está matando quem. O Estado moderno ocidental prefere matar de forma que os mortos não percebam imediatamente que estão morrendo. Mais higiênico, certamente. Mais presentável para as câmeras.

A República Islâmica é, nesse sentido, um laboratório em estado puro. Um governo teocrático que fundiu a legitimidade divina com o monopólio da coerção, que transforma qualquer dissidência em heresia e qualquer heresia em crime capital, exibe sem véu o que toda estrutura de poder faz quando não encontra resistência organizada suficiente para freá-la. Roma fazia isso nos circos, a Inquisição fazia nos autos-de-fé, os jacobinos faziam com a guilhotina e chamavam de progresso. O regime iraniano faz com o vocabulário do Islã, mas a lógica é a mesma de sempre: o poder que não é contido se expande, e quando se expande sem limite, começa a consumir os próprios cidadãos que teoricamente deveria proteger. Não é bug, é feature.

O dado mais revelador do relatório não é o número total. É a composição. A maioria das execuções envolve crimes de tráfico de drogas, categoria suficientemente elástica para acomodar desde narcoterroristas até pobres que tentaram ganhar dinheiro no único mercado disponível numa economia destruída por décadas de má gestão e sanções. O regime mata os que a miséria que ele mesmo criou empurrou para a marginalidade. Executa o sintoma para não tratar a doença, e assim mantém a doença viva porque a doença é lucrativa para quem está no topo do arranjo. Os Guardiões da Revolução controlam um império econômico estimado em centenas de bilhões de dólares. Perguntem a eles se as execuções os perturbam.

Mil seiscentas e trinta e nove mortes numa fila de doze meses. O mundo anota, publica, indígna-se por um ciclo de notícia e segue comprando, vendendo e negociando. A próxima reunião de cúpula terá cônsules e ministros que sorriram para câmeras ao lado de representantes do mesmo regime. Alguém assina contrato, alguém transfere tecnologia, alguém libera crédito, e a máquina que paga os carrascos continua funcionando. Não existe hipocrisia mais perfeitamente estruturada do que a indignação ritual com quem você acabou de jantar. O rei está nu, o jantar estava ótimo e a conta foi dividida igualmente entre os presentes.

Com informações da Gazeta Brasil. A análise e opinião são do O Algoz.