Princeton, em parceria com a Simons Foundation, analisou mais de cinco mil crianças e chegou ao óbvio que o aparato oficial fingia não ver: não existe um autismo, existem pelo menos quatro, cada um com assinatura biológica e clínica distintas. Quem convive com a realidade já sabia disso há tempos, qualquer mãe atenta percebe que o filho dela não cabe no mesmo molde do filho da vizinha, mas o consenso científico, sempre alérgico ao desvio, preferiu empurrar o diagnóstico genérico goela abaixo por décadas. Quando todo mundo concorda com algo tão complexo, desconfie: é geralmente sinal de que a ciência parou e a burocracia começou.

O ponto cego aqui não é acadêmico, é contábil. Um diagnóstico único justifica um protocolo único, e um protocolo único movimenta uma engrenagem bilionária de medicamentos padronizados, terapias homologadas por comitês, planos pedagógicos copiados em série e pareceres que rendem honorários sem que ninguém precise olhar para a criança de verdade. O autismo virou commodity regulatória, e commodities detestam heterogeneidade. Reconhecer quatro subtipos significa reconhecer que boa parte dos tratamentos prescritos aos atacados durante trinta anos foi, na prática, um tiro no escuro pago com dinheiro de plano de saúde, de verba pública e de pais desesperados que hipotecaram o sossego para bancar sessões cujo critério de eficácia ninguém jamais mediu com rigor.

Vale a pergunta antiga de sempre: quem pagou essa conta e quem recebeu o cheque? Pagaram as famílias, os contribuintes, os planos, as escolas obrigadas por lei a contratar profissionais certificados em protocolos genéricos. Receberam as farmacêuticas com seus psicotrópicos de amplo espectro, as franquias terapêuticas com suas metodologias registradas, os conselhos profissionais que vendem selos de credenciamento e, claro, o Estado, esse parasita inesgotável que regulamenta, fiscaliza, subsidia e no fim ainda cobra imposto sobre cada consulta. A indústria da uniformidade não sobrevive a uma taxonomia mais fina, e é por isso que a taxonomia mais fina demorou tanto a chegar.

A lógica do silogismo é brutal quando aplicada ao tema. Se cada subtipo tem base biológica própria, então cada subtipo exige abordagem própria. Se a abordagem atual é única, então a abordagem atual está errada para três em cada quatro crianças, no mínimo. A conclusão não tem para onde fugir: gastamos décadas aplicando o mesmo molde em realidades neurológicas incompatíveis, e chamamos isso de cuidado. Chama-se, no vocabulário adulto, desperdício organizado, e ele só prospera porque ninguém é responsabilizado quando a hipótese desmorona. O burocrata da saúde nunca devolve salário por erro de diagnóstico coletivo.

O mais revelador é que a descoberta veio de uma fundação privada, a Simons, não do aparato estatal de pesquisa. O filantropo arrisca dinheiro próprio em hipóteses heterodoxas; o ministério arrisca dinheiro alheio em consenso confortável. Um quer resposta, o outro quer relatório. Quando a pesquisa depende de comitê, de edital e de aprovação política, ela converge para o lugar comum porque o lugar comum não gera atrito, não custa carreira, não desagrada o grupo de interesse que financia o próximo congresso. Ciência decente nasce onde alguém tem pele no jogo, e pele no jogo é justamente o que o servidor público nunca teve.

Resta às famílias a lição de sempre: a libertação raramente vem do balcão oficial, vem do sujeito que recusou o rótulo pronto. Quatro autismos hoje, provavelmente oito amanhã, quando a ciência continuar desrespeitando a preguiça dos manuais. E cada subdivisão nova será uma facada no mercado da uniformidade, um sopro de autonomia para o paciente que até ontem era estatística. A verdade, quando finalmente aparece, costuma deixar um rastro de faturas impagáveis atrás de si, e este é o som que você ouve ao fundo: o ranger de dentes de quem lucrou muito vendendo um diagnóstico que nunca existiu como se fosse um só.

Com informações da Gazeta Brasil. A análise e opinião são do O Algoz.