O quadro é constrangedor para os profissionais da catástrofe urbana. Pesquisadores descobriram, com a paciência de quem precisa provar o óbvio, que se cada quintal tivesse um barril coletando água da chuva e cada telhado guardasse um pouco de verde, as enchentes nas grandes cidades cairiam em até treze por cento. Treze por cento. Sem licitação, sem consórcio internacional, sem empréstimo do Banco Mundial, sem aquela comissão técnica que viaja a Roterdã para estudar diques. Apenas tonéis de plástico, calhas e vontade. A pergunta que ninguém na sala do prefeito gostaria de ouvir é simples: se a solução custa o preço de uma pizza por residência, por que continuamos pagando obras de drenagem que custam o PIB de uma cidade média e ainda assim assistimos a sofá boiando no telejornal toda vez que chove forte?
A resposta não está na engenharia, está na contabilidade do poder. Drenagem pluvial é, há décadas, um dos negócios mais lucrativos do balcão municipal. Galeria subterrânea ninguém vê depois de pronta, ninguém mede, ninguém audita com rigor, e o contrato carrega aditivos como um navio carrega contêineres. Toda enchente vira pretexto para nova licitação, toda licitação vira nova obra, toda obra vira novo aditivo, e o ciclo se completa quando as ruas alagam de novo, justificando a próxima rodada. É o moto-perpétuo do orçamento. Reconhecer publicamente que treze por cento do problema some com um barril no quintal seria o equivalente, para a casta da drenagem, a um padre confessando que reza para a parede. Inadmissível.
Olhe a estrutura do raciocínio com frieza. Se a solução descentralizada funciona, então a solução centralizada é, em parte considerável, desnecessária. Se é desnecessária em parte considerável, então o dinheiro gasto nela é, em parte considerável, desperdício. E se é desperdício, alguém está embolsando. Não há terceira possibilidade. Os números não mentem, mentem os intermediários dos números. A drenagem municipal brasileira é o caso clássico em que o problema sustenta a indústria que finge resolvê-lo, do mesmo jeito que, na Roma decadente, os bombeiros particulares de Crasso chegavam ao incêndio e negociavam o preço do salvamento com o dono da casa em chamas. A diferença é que Crasso, ao menos, apagava o fogo depois de fechar o contrato.
Repare também na hipocrisia ambiental que se desenha na cena. Os mesmos gestores que decretam estado de calamidade climática a cada temporal, que fazem fila para fotografias em conferências internacionais sobre sustentabilidade, que criam secretarias inteiras com nomes em inglês para tratar da resiliência urbana, são os que jamais subsidiariam um centavo para que o cidadão instale um barril de captação no fundo do quintal. Por quê? Porque o barril não passa por empreiteira, não rende propaganda institucional, não justifica viagem técnica, não enche envelope de campanha. O barril é uma afronta à liturgia. O ambientalismo de gabinete adora a natureza desde que ela passe primeiro pelo edital.
E aqui chegamos ao ponto que a imprensa bem comportada não quer tocar. A solução já existe, é barata, é replicável e está ao alcance de qualquer proprietário com uma furadeira. O que falta não é tecnologia, é permissão para que o cidadão deixe de ser refém da incompetência alheia. Cada quintal que se torna autônomo na captação de chuva é um voto a menos de cabresto, um morador a menos dependendo do caminhão da defesa civil, uma família a menos suplicando ao vereador da esquina. E é exatamente por isso que a coisa não decola: descentralização é o pesadelo de quem vive da centralização. Quem manda no cano manda na cidade, e quem deixa de precisar do cano deixa de pedir favor.
Volte ao começo. Quem paga e quem recebe? Paga o contribuinte, duas vezes, no imposto que financia a obra que não funciona e na perda do sofá que boia na sala. Recebe a empreiteira, o gestor, o partido, o palanque da próxima eleição com botas de borracha posando para a foto. Treze por cento de enchente resolvidos com um pedaço de plástico no quintal não é uma boa notícia para a prefeitura, é uma ameaça existencial ao modelo de negócios. Por isso o estudo será educadamente arquivado, citado em algum seminário acadêmico, e a próxima chuva forte trará, pontualmente, o anúncio de uma nova obra bilionária de drenagem. O rei está nu, encharcado, e ainda cobra ingresso para o desfile.
Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.