Eis a notícia que circula com ares de revelação científica: um estudo concluiu que produzir menos trigo duro nas regiões mediterrâneas pode ser a salvação da agricultura diante do clima extremo. Leia de novo, devagar. Produzir menos. A solução para o agricultor que enfrenta seca, calor e variações bruscas de temperatura não é irrigação melhor, não é tecnologia de ponta, não é liberdade para experimentar cultivares resistentes sem a papelada de três ministérios. A solução, segundo os sábios de jaleco e planilha, é que o sujeito que acorda às quatro da manhã para arar a terra simplesmente aceite colher menos. É quase poético, se não fosse cínico.
Convém perguntar o que ninguém pergunta: quem financiou esse estudo e quem ganha com a conclusão? Porque a história da humanidade é razoavelmente clara nesse ponto. Toda vez que alguém com cargo público ou verba estatal aparece dizendo ao produtor o que ele deve ou não produzir, o resultado é fome para uns e fartura para outros. A União Soviética tinha uma legião de agrônomos estatais orientando kolkhozes a seguir o plano quinquenal, e o resultado foram as maiores fomes artificiais do século XX. Não é preciso ir tão longe: basta lembrar das cotas leiteiras europeias, que durante décadas pagaram fazendeiros para não produzir leite, enquanto o preço ao consumidor só subia e os burocratas de Bruxelas justificavam seus cargos administrando a escassez que eles mesmos fabricaram.
O truque retórico é elegante: substitui-se "produtividade máxima" por "consistência de rendimento ao longo dos anos". Soa razoável. Soa até prudente. Mas repare na operação lógica por trás. Se um agricultor livre, operando com seu próprio dinheiro e seu próprio risco, decide plantar menos numa safra porque avalia que o clima será desfavorável, isso se chama decisão empresarial. É a coisa mais natural do mundo. Ninguém precisa de um paper revisado por pares para dizer ao dono da terra que ele deve cuidar da própria terra. Agora, quando um estudo acadêmico transforma essa decisão individual em recomendação de política pública, o que se está dizendo, na prática, é que alguma agência, algum ministério, algum comitê internacional precisa de autoridade para regular o quanto cada agricultor pode plantar. E regulação, como qualquer pessoa com dois neurônios funcionais sabe, significa cargo, orçamento, fiscalização, multa e poder.
Sigamos o dinheiro, então. O mercado global de pesquisa agroclimática movimenta bilhões. Agências nacionais e supranacionais disputam fatias de financiamento que dependem de uma premissa simples: o futuro é catastrófico e só nós sabemos como evitá-lo. Cada estudo publicado é um tijolo a mais no muro de justificativas para manter e expandir orçamentos. O agricultor mediterrâneo que luta contra a seca não precisa de um pesquisador lhe dizendo para produzir menos; ele precisa que o governo saia do caminho para que ele possa investir em dessalinização, em variedades transgênicas resistentes à seca, em seguros privados, em contratos futuros que protejam sua renda. Mas nada disso interessa a quem vive de administrar crises. Resolver o problema elimina o emprego do resolvedor.
Há algo de profundamente obsceno em intelectuais bem alimentados, com salário garantido pelo erário, publicando papers que recomendam a homens de mãos calejadas que aceitem colheitas menores como estratégia de sobrevivência. É o equivalente moral de um sujeito sentado no ar-condicionado aconselhando o pedreiro a trabalhar menos sob o sol, enquanto cobra uma consultoria pelo conselho. A pergunta que o leitor deve fazer diante de qualquer "descoberta" que recomenda escassez voluntária é sempre a mesma: quem fica mais rico quando o produtor fica mais pobre? A resposta, invariavelmente, veste terno, frequenta conferências internacionais e nunca sujou os sapatos de barro.
Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.