O fato concreto é este: cientistas brasileiros batizaram de MesenCell uma terapia que usa células-tronco mesenquimais para tratar a doença do enxerto contra o hospedeiro, aquela complicação cruel que ataca pacientes transplantados de medula óssea. O tratamento padrão até ontem era a base de corticosteroide, droga conhecida desde os anos 1950, com efeitos colaterais que fariam corar um manual de tortura medieval. Inchaço, diabetes induzida, ossos que se desfazem, infecções oportunistas, humor de cão raivoso. E o paciente, agradecido, porque a alternativa era morrer. Agora aparece uma terapia celular que promete substituir esse arsenal de sofrimento. Boa notícia. Mas a pergunta que ninguém faz na coletiva é a única que importa: por que só agora?
Células-tronco mesenquimais não são novidade de laboratório de ficção científica. São estudadas há pelo menos duas décadas em centros sérios pelo mundo afora. O conhecimento existia, a técnica existia, a necessidade gritava em hospital de criança com leucemia. O que faltava? Faltava o que sempre falta quando uma tecnologia barata ameaça um mercado caro: faltava vontade política, faltava financiamento, faltava coragem de enfrentar o lobby farmacêutico que vende corticosteroide por quilo desde o governo Vargas. A indústria do remédio convencional movimenta bilhões com tratamentos paliativos de longa duração. Cura, quando aparece, é péssimo negócio para quem vende administração crônica da doença.
Observe a estrutura do arranjo. O Estado regula a entrada de novas terapias com um aparato burocrático tão denso que só corporações gigantes conseguem atravessá-lo. A pequena pesquisa universitária, mesmo brilhante, esbarra em três anos de papelada na agência sanitária, comitês de ética em série, ensaios clínicos que custam o PIB de um município. Quem paga essa fortuna? O contribuinte, via fomento público, e o consumidor, via preço inflado do produto final. Quem recebe? A grande farmacêutica que já tem o caixa para bancar a maratona regulatória, e os burocratas que vivem de carimbar a maratona. O paciente espera. O paciente sempre espera.
A solenidade com que se anuncia a MesenCell como conquista nacional esconde o constrangimento de fundo. Se uma terapia melhor era tecnicamente viável há quinze anos, cada paciente que morreu ou sofreu sob corticosteroide nesse intervalo foi vítima não da doença, mas do atraso regulatório e do conforto comercial das empresas estabelecidas. Não se trata de teoria da conspiração, trata-se de aritmética básica do incentivo. Ninguém investe pesado em destruir o próprio negócio, e o Estado, longe de proteger o cidadão, protege quem financia campanha, quem coloca executivo no conselho da agência, quem patrocina congresso médico em resort de luxo. O resultado é o conhecido: avanço lento, preço alto, paciente refém.
Há ainda o detalhe delicioso de que a pesquisa em questão saiu de instituição pública brasileira, financiada com dinheiro de imposto. O contribuinte paga a pesquisa, paga a regulação que atrasa a pesquisa, paga o tratamento antigo enquanto a pesquisa não chega, e, quando finalmente chegar ao mercado, pagará pelo novo tratamento com sobrepreço justificado por aquele mesmo custo regulatório que ele já financiou. É a quadrupla mamada, fenômeno que só o Estado moderno foi capaz de inventar e que nenhum senhor feudal teria a desfaçatez de propor a seus servos. A diferença é que o servo medieval reconhecia o seu senhor; o contribuinte contemporâneo ainda agradece, comovido, pelo presente que pagou quatro vezes.
Que a MesenCell vingue, que poupe sofrimento, que substitua de fato o corticosteroide nos protocolos clínicos. Será vitória da ciência aplicada e dos pesquisadores que insistiram contra o desânimo institucional. Mas que ninguém se iluda achando que o sistema funcionou. O sistema funcionou apesar de si mesmo, como sempre funciona quando algo bom escapa do labirinto. E enquanto a próxima terapia revolucionária dorme em alguma gaveta esperando autorização, alguém continua faturando alto com o tratamento velho, ineficaz e doloroso. Siga o dinheiro, e você encontrará o motivo de toda demora.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.