Dois homens foram "neutralizados", como diz o jargão asséptico dos comunicados militares, numa operação do Comando Sul dos Estados Unidos no Oceano Pacífico Oriental. A palavra "neutralizar" é uma das grandes invenções da burocracia bélica: transforma morte em procedimento administrativo. O Southcom coordenou a ação, publicou o resultado e seguiu adiante, como quem risca mais um item da lista de tarefas. A máquina funciona. A pergunta é: funciona para quem?

A guerra às drogas é o maior programa de emprego público das Américas, só que ninguém a chama assim. São bilhões de dólares por ano sugados do contribuinte americano para financiar frotas, aeronaves, satélites, bases avançadas e toda a logística necessária para interceptar barquinhos no meio do oceano. O resultado, após mais de cinco décadas dessa cruzada, é que a cocaína nunca foi tão barata, tão pura e tão abundante nas ruas de qualquer cidade americana. Se um empresário privado apresentasse esse histórico de resultados aos seus acionistas, estaria preso por fraude. Mas quando o fracasso é estatal, ele se transforma em justificativa para pedir mais verba no orçamento seguinte. Cada barco afundado é um PowerPoint novo na audiência do Congresso.

O mecanismo é antigo e qualquer estudante de história reconhece o padrão. A Lei Seca americana dos anos 1920 não eliminou o álcool, criou Al Capone. A proibição do ópio pelo Império Britânico não acabou com o consumo, gerou guerras inteiras no Sudeste Asiático. Toda proibição de um bem que as pessoas desejam produz três coisas com precisão matemática: um mercado negro violento, uma burocracia repressora que se alimenta do conflito e um álibi permanente para expandir o poder do Estado sobre a vida dos cidadãos. O narcotráfico não existe apesar da proibição. O narcotráfico existe por causa da proibição. Ele é filho legítimo da política que diz combatê-lo.

Sigam o dinheiro, como sempre. Quem lucra com essa operação no Pacífico? Os cartéis perdem um barco e dois soldados descartáveis, o que para eles equivale a um custo operacional menor do que a conta de luz de um laboratório. Já repuseram a carga antes mesmo do comunicado do Southcom ser traduzido para o espanhol. Quem realmente fatura são os contratistas militares que vendem os equipamentos de interceptação, os estaleiros que constroem os navios patrulha, as empresas de inteligência que fornecem os dados de rastreamento, os generais que justificam suas estrelas e os políticos que posam de duros perante as câmeras. Existe toda uma economia parasitária que depende da perpetuação desse conflito. Se as drogas fossem legalizadas amanhã, não seriam os cartéis os mais prejudicados, seriam os burocratas e fornecedores que vivem da guerra contra eles.

A operação no Pacífico Oriental tem ainda outro sabor, menos comentado. O Comando Sul é o braço militar americano para a América Latina e o Caribe, o que significa que Washington mantém uma estrutura de projeção de força sobre todo o hemisfério usando o narcotráfico como pretexto permanente. É um arranjo elegante: o problema nunca se resolve, logo a presença nunca se retira. Qualquer governo latino-americano que questione essa presença será acusado de ser conivente com o tráfico. Qualquer governo que a aceite entrega soberania em troca de fotos ao lado de oficiais americanos. A droga é o pretexto; o controle geopolítico é o produto.

Dois homens mortos no Pacífico. Nenhum nome divulgado, nenhuma nacionalidade confirmada, nenhum julgamento realizado. Foram executados por um aparato estatal que se autoconfere o direito de matar em águas internacionais em nome de uma guerra que jamais pretendeu vencer. O contribuinte americano pagou a bala, o combustível e o salário de todos os envolvidos. O contribuinte latino-americano paga com a violência que essa proibição gera em suas cidades. E os únicos que nunca pagam nada são os que decidem, dos gabinetes climatizados de Washington, que essa farsa deve continuar. A conta sempre chega. Só nunca chega para quem a merece.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.