A cena se repete com a previsibilidade entediante de novela das seis. O presidente americano sobe ao púlpito, infla o peito, anuncia que as negociações estão estagnadas e ameaça retomar a guerra contra o Irã caso Teerã não destrua seus estoques de urânio enriquecido. O figurino muda, o roteiro não. Há quase três décadas o mesmo espantalho persa é desenterrado sempre que a Casa Branca precisa de um inimigo conveniente, e sempre que o complexo industrial militar precisa renovar contratos que se medem em centenas de bilhões de dólares. A bomba iraniana é o monstro do Lago Ness da política externa americana: ninguém viu, mas todo mundo jura que existe, e a caçada nunca termina porque a caçada é o negócio.

Sigamos o dinheiro, que é onde mora a verdade. Quando a tensão sobe no Golfo, as ações da Lockheed Martin, da Raytheon, da Northrop Grumman e da General Dynamics não sobem por acaso; sobem porque guerra é o único produto americano cuja demanda o próprio fabricante consegue manufaturar via Departamento de Estado. Cada porta-aviões deslocado para o Estreito de Ormuz custa ao contribuinte americano cerca de sete milhões de dólares por dia só de operação. Cada míssil Tomahawk lançado é um milhão e meio que sai do bolso de quem trabalha no Kansas e entra no caixa de quem almoça em Bethesda. A geopolítica é a fantasia luxuosa que veste a fatura.

O detalhe deliciosamente cômico, e que nenhum jornalista bem comportado tem coragem de apontar, é que o programa nuclear iraniano começou nos anos cinquenta com um presentinho dos próprios americanos ao xá Reza Pahlevi, dentro do programa Átomos para a Paz. Vendemos o reator, treinamos os cientistas, abençoamos o enriquecimento, e quando o regime caiu e o brinquedo passou para mãos hostis, descobrimos que aquilo era uma ameaça existencial à civilização ocidental. É a velha cartilha do aprendiz de feiticeiro estatal: o governo cria o problema, depois cobra o ingresso para resolvê-lo, e ainda exige aplausos pela coragem de enfrentar o que ele mesmo gerou.

Observe a estrutura silogística da farsa: toda potência que enriquece urânio acima de vinte por cento é tratada como ameaça nuclear; o Irã enriquece acima de vinte por cento; logo, o Irã deve ser bombardeado. Belo argumento, salvo pelo inconveniente de que Israel, Paquistão e Índia possuem ogivas reais, nunca assinaram o Tratado de Não Proliferação e recebem afagos diplomáticos com chá e biscoito. A premissa maior, portanto, é seletiva, e premissa seletiva não é princípio, é pretexto. O que se vende como doutrina de segurança é, no fundo, uma régua de borracha que se estica conforme os interesses do ferreiro que a fabrica.

Enquanto isso, o cidadão médio assiste à novela acreditando que existe uma diferença substantiva entre o governo anterior e o atual, entre falcões e pombas, entre republicanos e democratas. Não existe. Existe um aparato permanente, blindado contra o voto, financiado pelo confisco tributário e pela impressora de dólares, cujo único projeto coerente é a perpetuação de si mesmo. O presidente da vez é o garoto-propaganda, o rosto televisivo da operação, mas as decisões nascem nos almoços lobistas de Washington, onde generais aposentados viram consultores de fabricantes de armas e ex-secretários de defesa sentam em conselhos da Boeing por meio milhão de dólares anuais. O rei está nu, o trono é alugado, e a coroa veio com nota fiscal da indústria bélica.

A pergunta final, que volta como bumerangue, é a mesma que abre qualquer análise honesta: quem paga e quem recebe? Paga o trabalhador americano em impostos e em inflação, paga o iraniano comum em sanções que matam mais civis do que qualquer bombardeio cirúrgico, paga o brasileiro toda vez que o barril de petróleo sobe porque o Estreito de Ormuz amanheceu nervoso. Recebem os mesmos de sempre, os acionistas do complexo militar industrial, os burocratas vitalícios do Pentágono, os think tanks pagos para fabricar a narrativa do medo. O resto é teatro, e o ingresso, como sempre, está vindo descontado na sua folha de pagamento.

Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.