O Departamento de Estado americano aprovou a venda potencial de US$ 2,7 bilhões em sistemas de defesa aérea para a Ucrânia, e a imprensa financeira noticiou como se fosse boletim meteorológico. Nada a ver. Isto não é venda no sentido que qualquer padeiro entende a palavra venda. É transferência de recursos do contribuinte americano para os cofres da Raytheon, da Lockheed Martin e da RTX, com escala em Kiev apenas para justificar a nota fiscal. O ucraniano não tem esse dinheiro, nunca teve, e todo mundo em Washington sabe. O que existe é um circuito fechado onde o Tesouro americano imprime, o Congresso autoriza, o Pentágono repassa, e o fabricante recebe. A Ucrânia entra na equação como a desculpa moral que faltava.
Quer dizer, alguém precisa perguntar quem exatamente ganha com cada leva dessas. Siga o dinheiro e você chegará aos mesmos endereços de sempre, os complexos industriais que financiaram campanhas de senadores dos dois partidos, que mantêm lobistas em cada corredor de Capitol Hill, que produzem em fábricas convenientemente espalhadas por distritos eleitorais decisivos. A engenharia é primorosa. Cada míssil Patriot vendido gera empregos em Massachusetts, contratos em Arizona, e votos garantidos para quem aprovar o próximo pacote. O ucraniano morrendo na trincheira é o produto final de uma cadeia de suprimentos política que começou muito antes de qualquer tanque russo cruzar fronteira alguma.
E aqui entra o que ninguém quer contabilizar. Esses US$ 2,7 bilhões não caíram do céu. Foram tirados de algum lugar, e o lugar é sempre o mesmo, o bolso do trabalhador americano via impressão monetária, endividamento futuro e imposto disfarçado de inflação. Cada dólar que vai para um sistema NASAMS ou IRIS-T é um dólar que não vai para a hipoteca da família em Ohio, para a mensalidade escolar em Michigan, para o combustível do caminhoneiro no Texas. O emprego criado na fábrica de armas todo mundo enxerga, com direito a foto do senador cortando fita. Os empregos destruídos pelo imposto que financiou aquela fábrica ninguém fotografa, ninguém conta, ninguém lamenta. Sumiram antes mesmo de existir.
Há também a hipocrisia da nomenclatura. Chama-se isto de "ajuda", palavra que sugere caridade voluntária, doação, gesto humanitário. Não é nada disso. Ajuda pressupõe consentimento de quem dá, e o contribuinte americano jamais foi consultado se queria bancar guerra alheia por tempo indeterminado. O que existe é confisco travestido de solidariedade internacional, decidido por um clube fechado de burocratas e legisladores que nunca pisaram numa trincheira, mas adoram a estética da guerra por procuração. É fácil ser corajoso com o sangue dos outros e generoso com o dinheiro dos outros, e Washington aperfeiçoou essa dupla covardia a níveis industriais.
O mais grave, porém, é o efeito de longo prazo desse modelo. Guerra financiada por impressão monetária não termina, porque não pode terminar. Terminar significaria admitir que o dinheiro acabou, que a fatura precisa ser paga, que a moeda perdeu valor no processo. Enquanto o dólar aguentar carregar essa dívida acumulada, o incentivo político será sempre prolongar o conflito, encomendar mais um lote, aprovar mais um pacote. O ucraniano vira instrumento, o russo vira desculpa, o americano vira pagador, e o fabricante vira o único vencedor definitivo dessa história toda. Quando a poeira baixar, e ela vai baixar, sobrará a conta e o vazio moral de uma república que confundiu política externa com programa de estímulo à indústria bélica.
Toda vez que um governo transforma tragédia em oportunidade de negócio, ele está cavando o próprio buraco moral e fiscal. Os US$ 2,7 bilhões de hoje serão os US$ 27 bilhões de amanhã, e assim por diante, até que alguém tenha a coragem rara de dizer o óbvio, que não se defende liberdade endividando gerações que ainda nem nasceram para enriquecer acionistas que já são bilionários. A guerra continua, os corpos se acumulam, e a bolsa de Nova York sobe. Coincidência, dirão os cínicos. Modelo de negócio, responderá quem ainda sabe ler um balanço.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.