O ministro iraniano desembarcou em Islamabad na sexta, os enviados americanos chegam no sábado, e de repente o Paquistão, aquele país que vive de pires na mão pedindo socorro ao FMI, transforma sua capital em sala VIP da geopolítica mundial. Não é caridade, não é hospitalidade, não é vocação para a paz. É comissão. Toda vez que dois inimigos jurados precisam se sentar à mesa sem perder a cara em casa, alguém no meio fatura a corretagem, e o paquistanês aprendeu cedo que sua melhor exportação é justamente sua localização entre potências histéricas.
O cardápio em cima da mesa cheira a enxofre. De um lado, o Estreito de Ormuz, aquele canal estreitinho por onde passa um quinto do petróleo do mundo, e que os iranianos ameaçam fechar sempre que precisam lembrar a Casa Branca de que existem. Do outro, o programa nuclear de Teerã, que serve de desculpa eterna para sanções que enriquecem contrabandistas, intermediários turcos, oligarcas chineses e contratantes do complexo militar americano. Quem paga? O motorista brasileiro que abastece o carro a oitenta centavos a mais o litro toda vez que um aiatolá pigarreia perto de um microfone. Quem recebe? Uma fauna de operadores que vive justamente da tensão, não da paz.
Há uma ilusão querida pelos editorialistas bem comportados, a de que negociação é sempre virtude e que diplomacia é sempre civilização. Conversa fiada. Negociação entre Estados é o velho jogo dos cartéis, só que com bandeiras. Quando dois monopolistas da violência se encontram, eles não estão preocupados com a viúva síria, com o pescador iemenita ou com o caminhoneiro indiano. Estão dividindo zonas de influência como mafiosos dividem bairros, e o vocabulário diplomático existe justamente para que o cidadão pagador de imposto não perceba que está assistindo a uma reunião de chefões fantasiada de cúpula.
O Paquistão, anfitrião improvável, joga aqui sua cartada de sempre. O país que nunca conseguiu fazer eletricidade chegar de modo confiável a Karachi domina, no entanto, a arte refinadíssima de transformar instabilidade alheia em dólar próprio. Foi assim na Guerra Fria, quando alugou território para a CIA empilhar mujahedins contra os soviéticos. Foi assim depois de 2001, quando alugou bases para os americanos enquanto abrigava nos fundos de casa o sujeito que eles caçavam. E é assim agora, oferecendo chá com biscoito a iranianos e americanos enquanto pede, do outro lado da mesa, mais um pacote do FMI, mais perdão de dívida, mais transferência involuntária de poupança de trabalhadores ocidentais para generais do Punjab.
O sintoma mais revelador desse teatro é o silêncio sobre o óbvio. Ninguém pergunta por que precisamos de uma cúpula em Islamabad para garantir que navios passem por um estreito que existe há milênios sem licença de governo nenhum. A resposta incomoda. Precisamos porque inventaram que o petróleo do Golfo é problema geopolítico, e não simples mercadoria privada que comprador e vendedor resolveriam sozinhos se não houvesse frotas estatais patrulhando, embargos travando contratos, e burocratas em Washington e Teerã decidindo, do alto de seus gabinetes climatizados, quem pode vender o quê para quem. Tira o Estado da equação e o estreito vira o que sempre foi, uma rota comercial. Bota o Estado e vira pretexto para guerra.
No fim, a coreografia se repete com a fidelidade de um relógio suíço. Anuncia-se a reunião, sobe o preço do barril, lucram as petroleiras estatais e privadas amigas do regime de plantão, lucram as fabricantes de drones, lucram os bancos que financiam reconstrução de tudo aquilo que primeiro ajudaram a destruir. Sai a nota oficial, vaga, em inglês diplomático, prometendo diálogo construtivo, e o cidadão comum, esse personagem invisível em todas as fotos, descobre semanas depois que a gasolina subiu de novo, que a inflação importada chegou ao supermercado, e que mais um pacote de ajuda externa será aprovado em nome da estabilidade regional. Quem paga, paga calado. Quem recebe, sorri para a câmera em Islamabad. O resto é literatura.
Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.