A delegação norte-americana sentou, negociou por vinte e uma horas seguidas, e voltou de mãos vazias de Islamabad. JD Vance anunciou o fracasso com a elegância protocolar de quem já sabia o resultado antes de embarcar. "Eles escolheram não aceitar", disse o vice-presidente, frase que carrega toda a ironia do mundo se você entender o que é, de fato, o regime iraniano e qual é o único jogo que ele sabe jogar. Não é diplomacia. É o xadrez do chantageador profissional, aquele que faz de conta que vai ceder para extrair mais uma rodada de concessões, mais uma dose de tempo, mais um ciclo de sanções aliviadas aqui, um acordo paralelo ali, enquanto a centrífuga continua girando no subterrâneo.
Existe uma lei elementar da política que a imprensa ocidental prefere ignorar porque contraria a narrativa confortável do diálogo perpétuo: um regime que depende do estado de guerra para justificar sua existência interna não pode fazer paz. O aiatolá não governa por mandato popular, não governa por competência administrativa, não governa por prosperidade econômica entregue ao povo iraniano. Governa pelo inimigo externo. O Grande Satã é o pilar estrutural de toda a arquitetura de poder clerical de Teerã. Retire o inimigo, e o que sobra? Uma teocracia sem legitimidade, sentada sobre uma população jovem que não acredita mais no projeto, controlando uma economia em colapso crônico, com uma moeda que virou piada. A negociação serve ao Irã exatamente enquanto não chega a lugar algum.
A história conhece esse tipo. O Império Romano passou séculos negociando com tribos que jamais tinham intenção de cumprir tratado nenhum, porque para aquelas lideranças o tratado era apenas o intervalo entre guerras, o período de rearmamento disfarçado de paz. A diferença é que Roma, eventualmente, reconhecia o padrão e agia de acordo. A diplomacia ocidental contemporânea desenvolveu uma alergia clínica ao reconhecimento de padrões, porque reconhecer padrões exige nomear o que se vê, e nomear o que se vê implica consequências que perturbam o conforto das burocracias internacionais. É mais fácil marcar mais vinte e uma horas de negociações, gastar o dinheiro do contribuinte em voos, hotéis e assessores, e voltar com um comunicado bem redigido sobre "progresso insuficiente mas diálogo mantido".
Siga o dinheiro, como sempre. Toda vez que uma rodada de negociações começa, o mercado de petróleo reage, os contratos futuros oscilam, os fundos que apostam em tensão ou distensão no Golfo movimentam posições bilionárias. Há uma indústria inteira que se alimenta da incerteza iraniana, e essa indústria não está em Teerã nem em Washington: está nas mesas de operação de Genebra, Londres e Dubai. O conflito congelado é um produto financeiro. Cada rodada fracassada de negociação é, para alguém em algum andar de vidro com vista para um rio europeu, excelente notícia. Não é teoria conspiratória, é apenas observar que os incentivos existem e que ignorá-los é ingenuidade ou má-fé.
O que JD Vance fez em Islamabad foi, no mínimo, honesto no desfecho: voltou sem fingir vitória, declarou o fracasso pelo nome, não vendeu derrota como "avanço no processo". Num mundo em que a linguagem diplomática foi aperfeiçoada durante décadas para transformar capitulações em "acordos históricos" e retrocessos em "rodadas construtivas", dizer "eles escolheram não aceitar" tem o sabor raro da palavra direta. Se isso vai traduzir em alguma política coerente, ou se a próxima administração vai sentar outra vez para mais vinte e uma horas de teatro pago pelo contribuinte americano, é a pergunta que vale a pena fazer. A resposta, infelizmente, já está esboçada nos ciclos anteriores.
Com informações da Gazeta Brasil. A análise e opinião são do O Algoz.