Então o homem que prometeu acabar com as guerras intermináveis do Oriente Médio está, neste exato momento, patrocinando mais uma rodada de conversas com o regime iraniano. Conversas que ele mesmo diz que não vai comparecer. Repare na beleza do arranjo: Trump anuncia a negociação, colhe o crédito político da manchete, mas não se senta à mesa. Quem se senta são funcionários do aparato diplomático americano, aquela mesma burocracia que o republicano jurou desmantelar. O palco é o Paquistão, um país que recebe bilhões em ajuda militar dos Estados Unidos para, entre outras coisas, manter um arsenal nuclear apontado para o vizinho indiano enquanto finge combater o terrorismo. Se isso não é comédia, é porque a tragédia ficou cara demais para o pagador de impostos.
A pergunta que ninguém faz é a mais óbvia: por que diabos os Estados Unidos precisam negociar alguma coisa com o Irã? O regime dos aiatolás sobrevive há mais de quatro décadas graças a uma combinação de repressão interna e inimigos externos convenientes. Sem o bicho-papão americano, o governo iraniano teria que explicar ao seu próprio povo por que a economia é um desastre, por que a inflação come o salário, por que mulheres são presas por mostrar o cabelo. Washington, ao se sentar para negociar, faz um favor colossal a Teerã: legitima o regime, dá a ele estatura de interlocutor sério, transforma uma teocracia falida em parceiro diplomático. O aiatolá agradece; o contribuinte americano, que financia cada centavo dessa operação, do avião do enviado ao hotel da delegação, não foi consultado.
Há um padrão nessas negociações que se repete com a monotonia de um relógio suíço. Os americanos negociam, cedem, assinam, anunciam vitória. Os iranianos assinam, descumprem, negam, e esperam a próxima rodada. Foi assim com o acordo nuclear de 2015, aquele monumento à ingenuidade ocidental em que se trocou dinheiro vivo, literalmente paletes de dólares num avião, pela promessa de que o Irã não construiria a bomba. O Irã pegou o dinheiro, continuou enriquecendo urânio, e o mundo fingiu surpresa. Trump rasgou o acordo em 2018 com fanfarra. Agora volta à mesa com a mesma contraparte, no mesmo tabuleiro, esperando resultado diferente. Na vida civil, isso tem nome clínico.
O que fascina é a engenharia de incentivos. Para o establishment de política externa americano, cada rodada de negociação é um banquete. Pense nos contratos de consultoria, nos voos de primeira classe, nos hotéis cinco estrelas em Islamabad, nos relatórios de centenas de páginas que ninguém lê, nos empregos no Departamento de Estado que só existem porque existe "crise" para administrar. A paz genuína seria o pior cenário para essa indústria. Se o Irã e os Estados Unidos simplesmente parassem de se provocar, milhares de burocratas, analistas, lobistas e fabricantes de mísseis perderiam a razão de existir. O conflito não é um problema a ser resolvido; é um negócio a ser gerenciado. A guerra, ou a ameaça perpétua dela, é o produto mais lucrativo que o Estado já inventou.
E Trump, o suposto outsider, o bilionário que ia drenar o pântano? Está fazendo exatamente o que todo presidente faz: usando política externa como teatro doméstico. Ele anuncia a negociação para parecer estadista. Não comparece para manter a mística de quem está acima do processo. Se algo der certo, foi mérito dele. Se der errado, a culpa é dos enviados. É o velho truque do soberano que manda o general para a batalha e fica no palácio polindo a coroa. Enquanto isso, o cidadão comum, tanto o americano quanto o iraniano, continua pagando, em impostos, em inflação, em liberdades confiscadas, por um espetáculo diplomático que não o beneficia em absolutamente nada. Quem ganha com essa negociação? Os mesmos de sempre. Quem perde? Você já sabe.
Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.