Vamos ao fato nu e cru: os Estados Unidos decidiram endurecer as sanções contra o petróleo iraniano, e o Irã respondeu fazendo aquilo que qualquer jogador encurralado faz quando lhe tiram as opções pacíficas, fechou o Estreito de Ormuz. Por ali passa algo em torno de um quinto de todo o petróleo consumido no planeta. O leitor que ache isso um detalhe geográfico menor pode conferir o preço do barril amanhã e depois me conte se ainda acha.
A lógica das sanções é sempre apresentada com aquela solenidade de quem acredita que burocratas em Washington possuem algum dom sobrenatural de disciplinar nações inteiras sem que ninguém se machuque no processo. Sanção, no vocabulário oficial, é "pressão diplomática". No vocabulário da realidade, é um ato de guerra econômica cujas consequências sempre, invariavelmente, sem uma única exceção na história, recaem sobre a população civil dos dois lados. O iraniano comum não come petróleo, mas depende da receita que ele gera para que seu país funcione minimamente. O americano comum não declarou guerra a ninguém, mas vai pagar gasolina mais cara, frete mais caro, comida mais cara, tudo mais caro, porque seu governo decidiu que precisa "limitar a capacidade de gerar receita" de um país do outro lado do globo. Pergunte ao contribuinte de Ohio se ele autorizou essa operação. Pergunte ao caminhoneiro do Texas se ele foi consultado.
O que ninguém na imprensa respeitável ousa dizer em voz alta é a pergunta elementar que deveria abrir toda matéria sobre política externa: quem ganha com isso? Quando o Estreito de Ormuz fecha, o preço do petróleo dispara. Quando o preço do petróleo dispara, quem lucra são os grandes produtores que não estão sob sanção. Os campos de shale americanos ficam mais rentáveis. As petroleiras do Golfo faturam como nunca. O complexo industrial militar, que já estava faturando com a campanha conjunta com Israel, ganha justificativa renovada para contratos maiores, orçamentos maiores, presença militar maior na região. É quase como se o conflito fosse, ele próprio, o produto, e a paz fosse o único resultado que ninguém no circuito do poder tem incentivo real para alcançar.
A parceria com Israel nessa campanha militar acrescenta mais uma camada ao teatro. Dois Estados com aparatos de defesa descomunais, ambos sustentados por dinheiro de impostos extorquidos de populações que, em sua maioria, prefeririam cuidar da própria vida, unem-se para apertar um terceiro Estado cujo regime teocrático também sobrevive sugando seus próprios cidadãos. Três governos, três máquinas de confisco, e no meio disso tudo, gente comum dos três países pagando a conta de uma briga que não é sua. Esse é o modelo: o Estado cria o inimigo, tributa o cidadão para combater o inimigo, e quando o inimigo reage, usa a reação como justificativa para tributar mais. É um ciclo que se retroalimenta com perfeição quase estética, se você tiver estômago para admirar esse tipo de engenharia.
A história já mostrou esse filme dezenas de vezes. Sanções contra o Iraque nos anos 1990 mataram centenas de milhares de civis e não derrubaram Saddam, ele só caiu com uma invasão que custou trilhões e criou o caos que vigora até hoje. Sanções contra Cuba duram mais de seis décadas e o regime segue lá, firme, usando as próprias sanções como desculpa para cada fracasso interno. Sanções contra a Rússia em 2022 iam "destruir a economia russa em semanas", segundo os especialistas de gravata que nunca acertam nada, e o rublo segue circulando, o gás segue fluindo por rotas alternativas, e o conflito segue matando gente. O padrão é tão claro que recusar-se a enxergá-lo já não é ingenuidade, é cumplicidade. Sanção não muda regime. Sanção empobrece povo e enriquece quem controla o aparato.
Ormuz fechado é apenas o último capítulo de uma história escrita sempre com a mesma tinta: dinheiro público financiando aventuras geopolíticas que beneficiam um punhado de corporações e burocratas, enquanto o cidadão que paga a conta não tem sequer o direito de perguntar por que está pagando. O petróleo iraniano é do Irã. O dinheiro do contribuinte americano é do contribuinte americano. Mas nenhum dos dois tem controle real sobre o destino daquilo que é seu. Essa é a mágica do Estado moderno: ele convence o assaltado de que o assalto é um serviço público.
Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.