O CENTCOM, braço militar americano responsável pelo Oriente Médio, comunicou ao mundo nesta segunda-feira que os portos do Irã estão, a partir de agora, cercados pela Marinha dos Estados Unidos, por ordem expressa de Donald Trump. A notícia foi apurada pelo O Antagonista e não surpreende ninguém que acompanha a escalada das últimas semanas, mas merece ser dissecada com cuidado, porque o que parece ser uma jogada de força estratégica é, na verdade, o roteiro mais velho e mais caro da história moderna: o Estado usando o monopólio da violência para resolver o que sua diplomacia falhou em negociar. Aristóteles ensinava que o estadista virtuoso, o homem dotado de phronesis, de prudência prática, age de modo proporcional ao fim pretendido. Um bloqueio naval, convém lembrar, não é uma nota diplomática. É um ato de guerra.
Rothbard nos deixou uma ferramenta simples e incômoda: siga o dinheiro. Bloqueios navais não saem baratos. A manutenção de uma força de interposição no Golfo Pérsico e no Estreito de Ormuz envolve porta-aviões, destróieres, logística de combustível, pessoal embarcado, munição e toda a cadeia de contratos de defesa que alimenta, com dinheiro extraído compulsoriamente dos contribuintes americanos, o complexo industrial-militar que Eisenhower teve a lucidez, e a coragem, de nomear antes de sair pela porta. O que o cidadão de Ohio ou do Texas ganha com esse bloqueio é uma pergunta que nenhuma rede de televisão faz com seriedade. O que a Lockheed Martin, a Raytheon e a General Dynamics ganham é uma pergunta que praticamente se responde sozinha.
A história não é avara em exemplos. O bloqueio continental de Napoleão, montado para estrangular a Inglaterra, terminou por estrangular a própria França, que dependia do comércio marítimo que pretendia proibir. O bloqueio de Cuba em 1962 funcionou porque foi cirúrgico, temporário e ancorado numa crise específica com prazo para acabar. Um bloqueio de portos iranianos não tem prazo, não tem objetivo declarado com precisão cirúrgica e não tem saída de emergência negociada de antemão. O Irã não é uma ilha política isolada: é um ator com aliados, com capacidade de represália assimétrica, com drones baratos e mísseis de médio alcance que já provaram seu alcance. Quando Aristóteles diz que a guerra justa exige proporção entre o mal combatido e o meio usado para combatê-lo, ele não está fazendo filosofia abstrata. Está descrevendo o critério pelo qual a história julga os imprudentes.
Há, além disso, uma contradição que poucos têm a honestidade de nomear. A mesma administração que vende ao mundo a narrativa da soberania nacional, que crítica o intervencionismo globalmente quando o rival é o adversário certo, fecha os mares de um país soberano com uma força naval cuja base legal é, na melhor das hipóteses, debatível. Não há declaração de guerra, que exigiria o Congresso americano. Há uma ordem executiva. Rothbard chamaria isso pelo nome correto: é o Estado em sua função predatória mais pura, contornando as amarras constitucionais que foram inventadas exatamente para isso, para impedir que um homem sozinho decidisse levar uma nação ao conflito armado. O paradoxo da liberdade imposta pela força é tão antigo quanto Roma, e tão destrutivo quanto Cartago.
Que o Irã seja um regime teocrático, repressivo e patrocinador de milícias regionais é um fato que ninguém minimamente informado disputa. Mas o argumento de que o remédio é o bloqueio naval unilateral comete o erro lógico que São Tomás de Aquino identificou há oito séculos: o bem não pode ser perseguido por meios intrinsecamente disordenados sem que o próprio bem se corrompa no processo. Cercar um país pela fome e pelo estrangulamento comercial atinge primeiro a população civil, que já vive sob as botas dos aiatolás, não os generais dos Guardiões da Revolução, que estocaram o suficiente para atravessar o bloqueio de primeira classe. O povo iraniano, que nas últimas décadas mostrou repetidas vezes que não ama seus algozes, será transformado, mais uma vez, em escudo involuntário de um regime que sobrevive precisamente da narrativa de cerco estrangeiro. Trump, ao fechar os portos, presenteou Khamenei com o melhor argumento de coesão interna que o regime poderia desejar. Nenhuma jogada de realpolitik poderia ser mais contraproducente, e nenhum comentarista de televisão vai notar isso antes que o dano esteja feito.