Na segunda-feira, o governo americano transformou o Estreito de Ormuz numa cancela. O pretexto é o programa nuclear iraniano, cujas negociações no Paquistão fracassaram com a eloquência característica de acordos que nunca foram pensados para funcionar. O bloqueio havia sido anunciado com a fanfarra habitual, como se transparência na violência a tornasse menos violência. E imediatamente, como se o mercado tivesse recebido um roteiro antecipado, o preço do barril de petróleo disparou. Que coincidência admirável.

Vamos seguir o dinheiro, porque o dinheiro não mente mesmo quando os políticos mentem com maestria. Quem lucra quando o petróleo sobe? As grandes produtoras americanas e sauditas, que operam fora do Estreito bloqueado e vendem o produto a preço de escassez artificial. Quem paga? O motorista em São Paulo, o agricultor no Mato Grosso, o padeiro em Fortaleza, todos repassando nos próprios bolsos os custos de uma decisão que ninguém consultou a eles. O imposto sobre a gasolina ao menos tem o decoro de aparecer na nota fiscal. O imposto geopolítico entra embutido no preço, invisível e permanente.

A lógica do Estado militar é sempre a mesma desde que Roma cobrava pedágio no Mediterrâneo: controle do comércio alheio é poder, e poder é dinheiro. O Estreito de Ormuz responde por cerca de um quinto de todo o petróleo que circula no planeta. Fechar essa garganta não é um ato de segurança nacional, é um ato de precificação global. Quando uma única entidade tem o poder de apertar uma torneira e fazer o custo de energia subir em todos os continentes simultaneamente, estamos diante do monopólio mais caro da história humana, e esse monopólio se chama hegemonia militar americana. Nenhuma Standard Oil jamais sonhou com tanto.

O argumento nuclear serve de embalagem. Desde o século passado, toda guerra de recursos vem embalada em moralidade urgente: democracia, direitos humanos, não-proliferação, combate ao terror. A embalagem muda, o conteúdo permanece. O Irã possui reservas provadas na casa dos 150 bilhões de barris, a quarta maior do mundo, e tem a petulência de querer vendê-las em condições que não passam pelo sistema financeiro anglo-americano. Isso, e não uma bomba atômica hipotética que nunca se materializa apesar de décadas de promessa catastrófica, é o que torna Teerã intolerável para Washington. O Iraque de Saddam também tinha armas de destruição em massa, até que não tinha. A memória institucional americana parece ter uma vida útil curiosamente curta.

Enquanto isso, o contribuinte americano financia o porta-aviões, o congresso americano aplaude de pé, o contratante de defesa assina um novo contrato e o consumidor de qualquer país do mundo paga a diferença no posto de gasolina. É uma redistribuição de renda global, compulsória e sem recibo, operada pela mais sofisticada máquina de coerção que a civilização ocidental já produziu. O talento humano para construir arranjos pelos quais os custos são socializados e os lucros privatizados não tem paralelo em nenhuma outra espécie animal. Só o Estado aperfeiçoou essa técnica à altura de uma arte.

O fim desta história ninguém sabe, mas o roteiro do meio é previsível com a precisão de um almanaque. Haverá tensão, haverá negociação, haverá solução que parecerá vitória para todos os lados e que preservará, curiosamente, todas as posições de poder que existiam antes. O barril vai oscilar conforme a conveniência do calendário político americano. Os contratos de defesa serão renovados. E em algum lugar, num posto à beira de uma rodovia estadual qualquer, alguém vai olhar para o display e perguntar em voz alta por que está tudo tão caro, sem receber resposta alguma, porque a resposta está no Estreito de Ormuz e não aparece em nenhum telejornal do horário nobre.

Com informações da Gazeta Brasil. A análise e opinião são do O Algoz.