O Estreito de Ormuz tem, em seu ponto mais estreito, pouco mais de cinquenta quilômetros de largura. Cinquenta quilômetros que separam o Irã de Omã, e pelos quais passa, com a pontualidade de um metrônimo, cerca de um quinto de todo o petróleo consumido no planeta. Desde esta segunda-feira, a Marinha dos Estados Unidos instalou-se ali como porteiro, com o poder de dizer a qualquer embarcação iraniana, de qualquer porte, com qualquer carga, que o caminho está bloqueado até segunda ordem. A pergunta que a imprensa séria deveria fazer, mas raramente faz, é a seguinte: quem deu a Washington o contrato de zelar pelas portas do mundo?
A resposta honesta é que ninguém deu. Washington tomou. E tomou porque pode, porque tem porta-aviões e porque o resto do mundo, por décadas, deixou acontecer enquanto fingia que aquilo era "ordem internacional baseada em regras". Qual ordem? Quais regras? As regras que os mesmos que as violam escreveram, revisaram e reescreveram toda vez que a realidade inconveniente bateu na porta. Há uma palavra precisa para descrever um agente que controla o fluxo de riqueza alheia pela força e cobra pedágio implícito na forma de submissão política: o nome não é "guardião", não é "policial do mar". O nome é aquele que a boa educação ensina a evitar em jantares de família, mas que a história usa sem cerimônia para descrever impérios em seu estágio de decadência arrogante.
O irônico, para não dizer o tragicômico, é que os mesmos que durante décadas proclamaram as virtudes do livre-comércio como solução universal para a pobreza e o conflito são exatamente os que agora põem fuzileiros navais na rota de comércio mais estratégica do planeta. Livre-comércio, claro, quando a concorrência convém. Bloqueio naval quando o país em questão decide não obedecer. Existe um nome técnico para esse arranjo: não é capitalismo de mercado, não é liberalismo clássico, não é nada que se possa defender com a cara limpa diante de qualquer tradição intelectual séria. É poder nu, exercido com roupagem jurídica costurada às pressas. A hipocrisia não é um defeito do sistema; ela é o sistema.
Siga o dinheiro, que ele sempre fala mais alto do que o comunicado oficial. O petróleo do Golfo Pérsico que não passa por Ormuz não passa em lugar nenhum com a mesma velocidade e o mesmo custo. Cada dia de bloqueio é um dia em que o preço do barril oscila, os mercados futuros especulam e os fundos que apostam na alta de commodities energéticas colhem o que não plantaram. Não é teoria conspiratória afirmar que guerras e crises geopolíticas têm beneficiários financeiros identificáveis; é contabilidade básica. As ações das empresas de defesa já estavam subindo antes do anúncio oficial. O mercado sabe de coisas que o comunicado de imprensa ainda não disse, porque o mercado, quando não está sendo manipulado pelo próprio Estado, tem a virtude brutal da honestidade.
O Irã, por sua vez, não é um país de santos. Seu regime é uma teocracia autoritária que persegue dissidentes, financia grupos armados e trata a própria população como material descartável para a sobrevivência da cúpula clerical. Dizer isso não é fazer apologia de Washington; é recusar a armadilha infantil do raciocínio binário que exige que se escolha um dos dois lados como o bom da história. Quando dois Estados soberanos se enfrentam numa disputa de poder, o cidadão comum, em qualquer dos dois países, é sempre o menos consultado e o mais sacrificado. O caminhoneiro brasileiro que abastece o posto na próxima semana pagará, em centavos repassados silenciosamente, um tributo que não votou, não autorizou e sequer saberá que está pagando.
O que começa como inspeção de embarcações raramente termina como inspeção de embarcações. A história, que tem memória longa e paciência curta com a ingenuidade, registra à exaustão como bloqueios navais são prólogos, não epílogos. O bloqueio continental de Napoleão; o bloqueio britânico da Alemanha na Primeira Guerra; o bloqueio de Cuba que dura mais de sessenta anos sem ter resolvido um único problema que prometeu resolver. A lógica é sempre a mesma: apertar até ceder. E o que acontece quando o apertado decide que ceder é pior do que resistir? A pergunta não tem resposta confortável, e é exatamente por isso que ninguém em posição de poder gosta de formulá-la em voz alta.
Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.