O chefe do Pentágono apareceu diante dos aliados com o ar grave de quem traz uma revelação cósmica, a China avança, o mundo está perigoso, e portanto os países amigos precisam, urgentemente, gastar mais com defesa. A plateia balançou a cabeça, anotou o recado, e foi correndo conferir o catálogo de Lockheed, Raytheon e General Dynamics. Porque é disso que se trata, no fim do dia, quando o secretário de guerra de um império pede que vassalos elevem o orçamento militar, ele não está sugerindo que cada um monte sua própria indústria bélica nacional, está sugerindo que comprem a dele. A retórica é da autossuficiência, a prática é da dependência reforçada.

Repare na engenharia do truque, primeiro fabrica-se o medo, depois oferece-se o remédio, e o remédio, por uma coincidência divina, é vendido pela mesma empresa que diagnosticou a doença. A China cresce, fato. A China moderniza seu arsenal, fato. Agora, daí pular para a conclusão de que a Polônia, a Alemanha, o Japão e meia dúzia de outros precisam aumentar para três, quatro, cinco por cento do PIB seus gastos militares, há um abismo lógico que só se atravessa quando se está sentado no conselho de administração de uma empreiteira do complexo industrial. O silogismo do Pentágono é simples, há uma ameaça, logo precisamos de armas, logo vocês compram nossas armas. A premissa do meio sumiu no caminho, ninguém perguntou se gastar mais com tanques resolve qualquer coisa, ou se apenas transfere riqueza de pagadores de imposto para acionistas.

O contribuinte alemão, que já vive sob o peso de uma das maiores cargas tributárias do planeta, será informado que precisa apertar mais o cinto para financiar mísseis cuja existência supostamente o protege de uma invasão chinesa que ninguém em sã consciência consegue desenhar no mapa. O japonês, que renunciou à beligerância na própria constituição, será convidado a esquecer o detalhe e abrir o cofre. O leste europeu, ainda traumatizado pela vizinhança russa, é o cliente mais fácil, basta sussurrar a palavra Moscou e o cartão de crédito sai sozinho do bolso. Toda a operação tem ar de seguro contra desgraças vagas, e quem vende o seguro é o mesmo que define qual desgraça vem por aí.

A palavra mágica do discurso é autossuficiência, e ela merece um momento de contemplação reverente, porque significa exatamente o oposto. Autossuficiente, no vocabulário imperial, é o aliado que paga sua parte da fatura sem reclamar, que mantém bases americanas em seu território, que compra armamento padronizado com a doutrina do quartel-general em Washington, e que jamais ousa negociar a própria política externa sem antes telefonar para pedir permissão. É a autossuficiência do filho adulto que mora no porão do pai, contribui com o aluguel, mas precisa avisar a que horas vai voltar. Soberania de papel, dependência de fato, e a conta vem em dólar.

Há ainda o detalhe deliciosamente cínico de que o próprio Tesouro americano nada num mar de dívida que beira o impagável, e portanto não pode mais sustentar sozinho o teatro da hegemonia global. A solução do estrategista contemporâneo não é reduzir o teatro, é redistribuir a bilheteria. Os aliados pagam, as empresas americanas faturam, os generais aposentam-se em conselhos consultivos milionários, e o cidadão comum, em qualquer um dos países envolvidos, continua trabalhando até as sete da noite para descobrir que metade do salário foi para um foguete que talvez nunca seja disparado, ou que, se for, certamente não será contra ninguém que ameaçava sua casa, seu filho, sua padaria.

A pergunta que nenhum jornal sério faz, e que portanto cabe a nós fazer, é simples e brutal, quem paga e quem recebe. Pagam os trabalhadores europeus, asiáticos e americanos, via imposto, via inflação, via oportunidade perdida em escola, hospital, estrada. Recebem os acionistas das fabricantes de armas, os burocratas do Pentágono que rodam pela porta giratória entre o serviço público e a iniciativa privada, os think tanks financiados pelas mesmas empresas para produzir relatórios que recomendam comprar mais armas, e os políticos que acumulam votos posando de protetores da pátria. O resto é decoração. Quando alguém em uniforme aparece na televisão pedindo aos amigos que invistam mais em defesa, o cidadão atento deveria fazer o que faz quando o vendedor de enciclopédia bate na porta, sorrir, agradecer, e fechar com cuidado.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.