O anúncio saiu discreto, como quem tira o lixo de madrugada para o vizinho não ver. Os Estados Unidos, que há três anos vinham pregando o cerco sagrado ao petróleo russo, acabam de suspender a maior parte dessas mesmas sanções, com um prazo curioso que expira no dia 16 de maio. Ou seja, o inimigo existencial do Ocidente, o vilão que financiava tanques e mísseis, o pária que deveria ser estrangulado economicamente até a última gota, recebeu agora uma licença oficial para voltar a vender barris ao mundo livre. O crime continua o mesmo. O criminoso continua o mesmo. Só mudou o humor do condenador.

Quem acompanha o roteiro dessas peças sabe que sanção é instrumento de palco, não de princípio. Funciona enquanto dá aplauso, enquanto o noticiário se emociona com a bandeirinha azul e amarela no perfil do Twitter, enquanto o tanque cheio custa pouco. No segundo em que o galão de gasolina sobe dois dólares na bomba de Ohio, a moral se abre em negociação, o princípio vira interesse e o sangue derramado na Ucrânia passa a caber em uma planilha de Excel. A matemática é brutal, mas é a única que nunca mente: quem paga a conta do embargo é o consumidor ocidental, e consumidor ocidental vota.

Vale lembrar que sanção econômica nunca foi o que vendem no rótulo. A história está cheia desses teatros. Cuba foi embargada por mais de meio século e continua exatamente igual, só que mais pobre; o Iraque foi estrangulado nos anos noventa e quem morreu foram crianças, não o ditador; a Coreia do Norte segue lançando foguetes com a barriga vazia do próprio povo. O embargo raramente derruba o alvo, invariavelmente empobrece o súdito do alvo, e sempre, sempre, beneficia algum intermediário bem posicionado que vende por fora o que por dentro virou contrabando. Com o petróleo russo foi a mesma novela: Índia comprou barato, refinou, revendeu caro para a Europa; traders suíços engordaram; armadores gregos bateram recordes de frete; e o barril que saía de Novorossiysk chegava em Roterdã com carimbo de Mumbai. O embargo existia no papel. No mar, era festa.

Agora o papel também foi picado. A justificativa oficial virá embrulhada em algum eufemismo técnico, licença geral, ajuste de conformidade, janela humanitária, qualquer palavra comprida que sirva para esconder o fato simples de que refinarias americanas precisam de crude pesado, que o Brent não pode disparar em ano político, e que o Tesouro americano descobriu, de novo, que moeda não se imprime sem inflação e inflação não se esconde atrás de discurso. O moralismo de guerra custa caro, e quando a conta chega, o moralista lava as mãos e culpa o preço do frete.

Preste atenção no prazo, porque ele é a piada inteira. Até 16 de maio. Por que 16 de maio? Porque é o tempo exato que os estrategistas calcularam para reabastecer estoques, acalmar o mercado, fechar contratos e renegociar a próxima rodada de chantagem multilateral. A sanção, que deveria ser muralha moral, foi rebaixada oficialmente a torneira que se abre e fecha conforme o calor da cozinha. Hoje aberta, amanhã fechada, depois de amanhã aberta de novo, e quem estiver distraído acredita que existe coerência em algum lugar dessa dança.

O leitor atento deveria tirar daqui uma lição que não está na capa dos jornais. Quando um governo anuncia sanção, ele não está punindo ninguém lá fora; está cobrando imposto disfarçado aqui dentro. Quando suspende a sanção, não está fazendo um favor ao inimigo; está admitindo que o imposto ficou insustentável para a base eleitoral. A guerra, para os gabinetes, é sempre uma variável. Os princípios, sempre negociáveis. O que não se negocia jamais é o poder de decretar o que é proibido na segunda e permitido na sexta. Esse privilégio, esse sim, é intocável. E somos nós, invariavelmente, quem pagamos para que ele continue sendo.

Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.