A história é velha e o roteiro também. Bruxelas anuncia, com aquela solenidade litúrgica que só burocrata europeu consegue fingir, que vai libertar o continente do "domínio" da Visa e da Mastercard criando um euro digital. Repare na palavra. Domínio. As duas bandeiras americanas dominam o sistema de pagamentos europeu há quatro décadas e ninguém em Frankfurt parecia particularmente incomodado enquanto os bancos centrais recebiam seus relatórios trimestrais e os reguladores recebiam seus convites para palestras pagas em Davos. O incômodo é recente, e o incômodo tem data: chegou junto com o bitcoin, com as stablecoins, com a possibilidade real de que cidadão comum transacione valor sem pedir licença a um funcionário público de gravata.

É aí que mora a contradição que ninguém em horário nobre vai apontar. Vendem o euro digital como resposta ao oligopólio privado, mas o que está sendo proposto não é concorrência, é substituição de um monopólio funcional por outro monopólio, este com poder de polícia anexo. A Visa pode te negar uma maquininha; o banco central, com moeda programável, pode te negar a possibilidade de comprar carne vermelha em determinada semana, gasolina acima de certo limite, livros da lista errada. Quem acha exagero confunde paranoia com leitura de minuta. Os documentos técnicos estão publicados, em letras miúdas, e descrevem exatamente isso com a candura de quem ainda acredita que ninguém lê.

Siga o dinheiro e a névoa se dissipa. Quem paga essa festa? O contribuinte europeu, via custo de implementação, infraestrutura, regulação, exércitos de consultores e a inevitável expansão monetária que financia projetos faraônicos cujo retorno é sempre político. Quem recebe? Em primeiro lugar, o próprio banco central, que ganha um instrumento de controle direto sobre cada transação realizada no continente, dispensando o intermediário comercial que ao menos respondia a acionistas e tinha algum interesse em não afugentar clientes. Em segundo lugar, as consultorias e fornecedores de tecnologia escolhidos a dedo nas licitações de sempre. Em terceiro lugar, a classe política que vai descobrir, com surpresa fingida, que carteira digital estatal é também urna censitária permanente.

A resistência crescente que a notícia menciona não é nobreza moral dos bancos privados nem despertar súbito de defensores da privacidade. É reflexo de instinto. Os bancos comerciais perceberam que, se o cidadão tiver conta direta no banco central, eles viram intermediários decorativos, e ninguém quer virar decoração. As big techs perceberam que vão ter de competir com um concorrente que escreve as próprias regras. Os ativistas de privacidade, esses sim com algum mérito, perceberam que dinheiro rastreável é dinheiro vigiado, e dinheiro vigiado é liberdade condicional. A disputa, portanto, não é entre soberania e mercado. É entre fações que querem fatias diferentes do mesmo bolo, e o bolo é a sua transação cotidiana.

Há um silogismo simples que escapa aos editorialistas oficiais. Toda moeda emitida por monopolista serve, antes de tudo, ao monopolista; o euro digital será emitido por monopolista; logo, o euro digital servirá, antes de tudo, ao Banco Central Europeu. Não há mistério, não há complexidade, não há nuance. O resto é narrativa, e narrativa em finanças é o que perfume é em peixaria velha. Os romanos, quando começaram a raspar a prata das moedas para financiar guerras e circo, também juraram que era pelo bem do império. O império caiu, as moedas viraram cobre, e o povo continuou pagando. A diferença é que agora a raspagem é digital, instantânea e bidirecional: tiram valor pela inflação e tiram liberdade pela rastreabilidade, no mesmo gesto.

O que deveria envergonhar qualquer adulto com memória é a coragem com que vendem isso como modernização. Modernização é palavra mágica, dispensa argumento, encerra debate. Quem é contra modernizar? Ninguém, evidentemente, e por isso a palavra é usada. Mas modernizar o quê, exatamente? A capacidade do Estado de saber, em tempo real, onde você almoçou, com quem dividiu a conta, qual livro comprou, qual passagem reservou, qual médico consultou? Isso não é modernização. Isso é o sonho úmido de qualquer regime que a humanidade já teve a infelicidade de hospedar, agora oferecido em embalagem azul com estrelinhas amarelas e selo de aprovação democrática. Quem paga, no fim, é quem sempre pagou. Quem recebe, no fim, é quem sempre recebeu. O resto é coreografia.

Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.