A Bolívia acordou nesta semana com a mesma cena que repete há duas décadas, só que com os papéis trocados de lugar. Estradas bloqueadas, cidades sem comida, caminhões parados, e no centro do tabuleiro o velho cacique cocaleiro exigindo eleições antecipadas contra o presidente Rodrigo Paz, que tomou posse há poucos meses prometendo arrumar a casa que ele mesmo, o cacique, deixou em ruínas. É a velha tática do incendiário que volta ao prédio queimado vestido de bombeiro, oferecendo seus serviços para apagar o fogo que ateou. E parte da imprensa, com aquela cara séria de quem nunca aprende, transmite a cena como se fosse novidade.
Vale parar e perguntar o básico, aquela pergunta que ninguém quer fazer porque a resposta envergonha muita gente. Quem paga essa festa de bloqueios? O comerciante de El Alto que perde o estoque perecível. A dona de casa de La Paz que vê o quilo do tomate triplicar em quarenta e oito horas. O caminhoneiro autônomo que tem prestação para pagar e diesel queimando no acostamento. E quem recebe? O líder que vive de ser oposição, o sindicalista profissional que cobra pedágio na barreira, o agitador que recebe ajuda de custo em dinheiro vivo e em cargo futuro. Sempre foi assim. O custo é difuso, espalhado entre milhões de anônimos. O ganho é concentrado, depositado em poucos bolsos conhecidos. É o modelo de negócio mais lucrativo já inventado pela política latino americana, e funciona porque a vítima paga sorrindo, convencida pela propaganda de que está defendendo alguma causa nobre.
O detalhe delicioso, e ninguém comenta com a honestidade devida, é que a Bolívia está quebrada justamente por causa de quem agora exige o microfone de volta. Vinte anos de estatização, vinte anos de subsídio ao combustível pago com reservas internacionais que evaporaram, vinte anos de gás vendido a preço de banana para comprar lealdade eleitoral. O resultado está nos postos vazios, na fila do dólar paralelo, na inflação que come o salário antes do dia vinte. Aquilo que chamaram de redistribuição era na verdade um saque organizado, um confisco lento das gerações futuras travestido de generosidade presente. A conta chegou, como sempre chega, e agora o autor do estrago aponta o dedo para o herdeiro do problema dizendo que ele não está resolvendo rápido o bastante.
Os silogismos são tão simples que doem. Se um governo destrói a moeda, esvazia o caixa e quebra o produtor, então o sucessor herda um país inviável. Se o sucessor herdou um país inviável, então o ajuste será amargo, demorado e impopular. Se o ajuste é impopular, então o destruidor original retorna travestido de salvador. A peça é a mesma desde os tempos das repúblicas bananeiras do século passado, mudam os figurinos, os slogans, as bandeirinhas. A mecânica é idêntica. Quem prometeu paraíso e entregou inferno volta sempre, porque o eleitor médio prefere a memória curta à dor do espelho.
E é aqui que mora a perversidade refinada da coisa toda. O caudilho não precisa vencer eleição nenhuma para mandar. Basta bloquear estrada, sufocar abastecimento, criar caos suficiente para que o governo legítimo seja forçado a ceder, negociar, recuar. É a chantagem elevada à categoria de método político, o monopólio privado da violência exercido por quem perdeu o monopólio público. Estradas livres seriam democracia funcionando. Estradas bloqueadas são ditadura sindical operando à luz do dia, com a cumplicidade silenciosa de uma imprensa internacional que adora chamar de movimento popular aquilo que em qualquer outro contexto chamaria de extorsão organizada.
A pergunta final é a mesma do começo, porque honestidade intelectual exige circularidade. Quem paga? O boliviano comum, aquele que só queria trabalhar, comprar pão e ver o filho na escola. Quem recebe? O profissional da agitação, o ex presidente que confunde saudade do poder com vocação democrática, e a vasta clientela que vive das tetas do Estado e entra em pânico quando alguém ameaça desligar a mamadeira. Enquanto o leitor digere isso, lembre que a receita está sendo testada também por aqui, com pequenas adaptações regionais. Quem tem olhos, que veja. Quem tem memória, que use.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.