Shi Yongxin, o chamado "CEO monge", acaba de receber vinte e quatro anos de prisão por peculato e suborno, e teve a bondade de avisar que não vai recorrer. A cena tem o sabor cômico das melhores tragédias: o homem que durante décadas pregou o desapego, a renúncia, o esvaziamento do ego e a transcendência do mundo material, foi flagrado fazendo exatamente aquilo que todo burocrata faz quando ninguém está olhando, ou seja, encher os próprios bolsos com o dinheiro alheio sob a desculpa de servir a uma causa maior. A diferença é cosmética. Onde o ministro usa terno, o abade usa túnica cor de açafrão. O esquema é idêntico.
Convém lembrar quem paga e quem recebe nessa engenharia milenar travestida de espiritualidade. O Templo Shaolin, depois da reabertura promovida pelo regime nos anos oitenta, virou franquia global de turismo marcial, com escolas licenciadas, filmes, espetáculos, marcas registradas, parcerias imobiliárias e até tentativas de abrir capital em bolsa. O fiel que entrega o yuan acreditando estar contribuindo para a preservação de uma tradição milenar está, na verdade, alimentando uma estrutura corporativa cujo verdadeiro produto não é a iluminação, é a marca. E toda marca precisa de um gerente. Shi Yongxin foi o gerente.
A construção lógica é elementar e brutal. Todo monopólio protegido pelo poder político produz renda extraordinária. O Estado chinês, que persegue qualquer culto autônomo com ferocidade exemplar, escolheu preservar Shaolin porque o templo virou ativo geopolítico, vitrine de soft power, atração turística que rende divisas. Logo, o abade não administrava um mosteiro, administrava uma concessão estatal disfarçada de instituição religiosa. E concessão estatal, em qualquer latitude, sob qualquer bandeira, em qualquer século, produz exatamente o tipo de corrupção que agora ele pagará com a liberdade. A surpresa não é o desvio. A surpresa seria a honestidade.
Há ainda o detalhe pitoresco da sentença sem recurso. Na China, recorrer contra o Partido é esporte de risco, e o monge, que de tolo não tinha nada, percebeu que vinte e quatro anos sentado é melhor do que zero anos deitado num necrotério. A renúncia ao recurso é a última homenagem que ele presta ao sistema que o criou, o engordou e agora o devora. É o ritual de sempre. Quando o ladrão fica grande demais, o patrão maior precisa puni-lo publicamente para que a plateia continue acreditando que existe justiça. Roma fazia isso com os procônsules gananciosos das províncias, e a República Popular faz com seus abades insaciáveis.
A moral da história, se é que ainda interessa moral neste mundo, é que sempre que um cofre é gerido por quem não responde aos seus donos legítimos, o resultado é matematicamente previsível. Não importa se o gestor veste batina, túnica, terno ou farda. Dinheiro alheio sem fiscalização rigorosa, sem propriedade definida, sem incentivo para preservar, vira festim. O templo confiou no abade porque o abade era santo. O Estado confiou no templo porque o templo era útil. Os fiéis confiaram em ambos porque foram ensinados a confiar. No fim, o único que enriqueceu foi quem assinava os cheques. Coincidência? Nunca foi.
Que sirva de lembrete aos devotos de qualquer fé, inclusive a fé laica no homem público virtuoso. O sujeito que pede para administrar a sua poupança em nome de um bem coletivo, seja ele a salvação da alma, a redenção da pátria, a justiça social ou a iluminação do espírito, está pedindo a chave do cofre. E quem pega a chave do cofre, mesmo jurando por todos os budas, todos os santos e todas as constituições, vai abrir o cofre. É da natureza da besta, não da ideologia da besta. Vinte e quatro anos é pouco para quem traiu a fé de milhões. Mas é tudo que o sistema entrega quando o sistema é cúmplice.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.